segunda-feira, 1 de junho de 2020

Currículo escolar e demandas multiculturais

Currículo escolar e demandas multiculturais
ANAIS
CONEXBEL-Congresso de Pesquisa e Extensão de Belford Roxo
(ISSN 2318-5929)



 


Caroline Delfino dos Santos

Doutoranda e mestre em Humanidades, Culturas e Artes (Unigranrio), especialista em Organização Curricular e Prática Docente na Educação Básica (UERJ), orientadora educacional e professora na rede municipal de Duque de Caxias/RJ.



RESUMO:

Os movimentos sociais apontam para a necessidade de superação das desigualdades e também das formas monoculturais da sociedade se impor. No campo da educação pública questiona-se em que medida a democratização do ensino prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação 9394/96 articula-se à necessidade da valorização das experiências extramuros escolares dos alunos. Assim, o presente trabalho surge como fruto de reflexões iniciadas como docente e orientadora educacional em escolas de Duque de Caxias-RJ com as classes populares, resultando em uma dissertação de mestrado. O trabalho tem como principal objetivo apresentar resultados de uma pesquisa dissertativa tendo como eixo central currículo e culturas. Para tal, apoia-se na etnografia. O diálogo com os sujeitos da pesquisa revelou que as categorias cor, gênero, religião e ainda outras marcas identitárias precisam ser discutidas no campo do currículo. Assim, os princípios multiculturais se mostram alinhados à presente demanda observada em campo.

Palavras-chave: Educação; Currículo; Culturas;

 

1. INTRODUÇÃO

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação 9394/96, em sua redação, menciona como um dos princípios básicos a valorização das experiências extraescolares do educando. O presente texto apresenta as seguintes questões problematizadoras: O currículo oficial favorece a permanência das crianças pobres na escola pública? As experiências vivenciadas fora da escola são contempladas na sala de aula? Em que espaços/tempos/circunstâncias? A escola (re)conhece as situações de desvantagens aos quais os alunos são submetidos? A partir de então, as perspectivas multiculturais são analisadas como um possível caminho para o debate da diversidade de culturas presentes no cenário educacional.

 

As diferenças apresentadas pelos diversificados grupos que hoje compõem a escola pública impulsionam a tecitura de novas referências a partir das experiências culturais dos alunos antes mesmos destes chegarem à escola. As tentativas de unificar o saber acabam por encobrir as diferenças ao invés destas serem valorizadas no ambiente educacional e até mesmo questionadas, como pode ser visto ao longo do texto. Não há como se pensar um currículo voltado para as classes populares sem se propor conhecer as vivências das crianças que hoje compõem a escola pública.

 

Mais que uma pesquisa sobre crianças, os atuais contornos dados pela sociologia da infância sugerem o trabalho investigativo a partir de suas narrativas possibilitando a ela a autoria de suas histórias e trajetórias. Daí a opção política pelo uso da terminologia sujeito ao invés de objeto. A metodologia empregada no estudo buscou tratar das crianças e suas infâncias incorporando suas vozes e outras formas de linguagens ao texto. Uma escrita que se debruça sobre o tratamento das culturas infantis e sua imersão no currículo escolar implica no desafio de manter o compromisso com a ciência, contudo de maneira articulada à estética, à emoção e à liberdade.

Não nos basta pensarmos a educação apenas como um direito social a ser oferecido por lei à toda população em idade escolar, mas pensar em como garantir na prática que tal direito se efetive, em que condições, contextos e circunstâncias. Se por um lado a urgência do acesso igualitário à educação é verídica, por outro, importa-nos a construção de um currículo que não apenas assuma a existência das diferenças na sociedade, mas que questione a produção social dessas diferenças e seus resultados nas relações cotidianas:

 

(...)O multiculturalismo nos faz lembrar que a igualdade não pode ser obtida simplesmente através da igualdade de acesso ao currículo hegemônico existentes como nas reivindicações progressistas anteriores. A obtenção da igualdade depende de uma modificação substancial do currículo existente. Não haverá justiça curricular, para usar uma expressão de Robert Connell, se o cânon curricular não for modificado para refletir as formas pelas quais a diferença é produzida por relações sociais    de assimetria. (SILVA, 2007, p. 88)

 

Com base no exposto, abordaremos o multiculturalismo enquanto concepção curricular norteadora de reflexões em torno da heterogeneidade presente no espaço escolar e algumas das demandas trazidas pelos sujeitos a partir dessa diversidade. Neste texto apontaremos algumas considerações no que se refere aos desafios e possiblidades encontrados no ambiente escolar para o tratamento da diversidade a partir de uma leitura multicultural.

 

Os resultados apontaram o diálogo com os alunos como um importante instrumento para o reconhecimento, valorização e inserção de suas culturas no currículo escolar. Em tempo mostraram-se experiências capazes de promover maiores reflexões em relação à diversidade presente no cenário educacional, além de ter contribuído na desconstrução de estereótipos historicamente alimentados na escola em relação às crianças oriundas das camadas mais pobres da sociedade.

 

2. PERSPECTIVAS MULTICULTURAIS SOBRE O CURRÍCULO

Conforme previsto na Lei de Diretrizes e Bases da Educação 9394/96 em seu artigo 3º “O ensino será ministrado com base no(s) seguinte(s) princípio(s): I- Igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; (...)X- Valorização da experiência extraescolar” assim, questionamo-nos de que forma a escola busca valorizar tais práticas. Concomitante à legislação citada, a análise da redação dos Parâmetros Curriculares Nacionais chama-nos a atenção quanto à oferta de uma educação comprometida com a cidadania. Para tal, elege como um dos princípios a igualdade de direitos:

 

Refere-se à necessidade de garantir a todos a mesma dignidade e possibilidade de exercício de cidadania. Para tanto há que se considerar o princípio da equidade, isto é, que existem diferenças (étnicas, culturais, regionais, de gênero, etárias, religiosas, etc.) e desigualdades (socioeconômicas) que necessitam ser levadas em conta para que a igualdade seja efetivamente alcançada. (BRASIL, 1997, p.20)

 

O texto revela a importância da inclusão das questões sociais no currículo escolar. Apresenta em seu corpo a pluralidade cultural como um dos temas transversais, apontando para a diversidade dos grupos que compõem a cultura brasileira e alertando-nos ainda para a emergência de se investir na superação da discriminação e dar a conhecer a riqueza representada pela diversidade etnocultural que compõe o patrimônio sociocultural brasileiro, valorizando a trajetória particular dos grupos que compõem a sociedade. (BRASIL, 1997, p. 20)

A escola, como subproduto do meio tende a projetar nos alunos um modelo eminente de personalidade baseada quase sempre nos valores aceitos socialmente: a cultura do masculino, hétero, cristão, branco. Os arranjos sociais atuais refletem um mundo cada vez mais misto. Assim, partimos da análise multicultural para a defesa de uma escola com uma perspectiva mais ampla entorno dos alunos e trajetórias.

 

Historicamente o multiculturalismo surge nos Estados Unidos no esforço de romper com a ideia de escola enquanto espaço monocultural, mais especificamente no campo do ensino superior. As ditas minorias sociais percebem a nítida valorização da cultura branca, europeia, masculina e heterossexual no currículo universitário em detrimento das suas culturas e defendem que as contribuições das diferentes experiências culturais sejam contempladas também no currículo escolar. Importante salientar que o multiculturalismo não se limitou ao espaço acadêmico, mas se construiu a partir das mobilizações das minorias em busca de maior visibilidade e igualdade social.

 

De acordo com Silva, “não é possível estabelecer nenhum critério transcendente pelo qual uma determinada cultura possa ser julgada superior à outra” (SILVA, 2007, p. 86). É com base nesse princípio que o multiculturalismo coloca-se como um movimento de afirmação diante do direito à diversidade e se assume como ferramenta de luta política a favor da construção de práticas mais igualitárias. Trata-se, pois, de um fenômeno social que visa a promoção de uma educação intercultural por meio de ações politicamente comprometidas com a valorização e contemplação das diferentes culturas.

 

O tratamento igualitário às diferentes culturas não é um fim em si mesmo. O multiculturalismo coloca-nos diante da necessidade de pensarmos de que maneira a diferença é posta nas relações sociais e em que medida a escola pode favorecer no processo de diminuição dessa desigualdade. Daí pensarmos o multiculturalismo não apenas como conceito ou valor, mas como instrumento de luta na defesa das diferenças que se referem a cor, ao gênero, à religião, à faixa etária, às necessidades especiais e a tantas outras marcas identitárias.

 

Os estudos de Silva (2007) denotam a ambiguidade presente na essência do multiculturalismo:

 

Por um lado, o multiculturalismo é um movimento legítimo de reivindicação dos grupos culturais dominados no interior daqueles países (países dominantes do Norte) para terem suas formas culturais reconhecidas e representadas na cultura nacional. O multiculturalismo pode ser visto, entretanto, também como uma solução para os “problemas” que a presença de grupos raciais e étnicos coloca, no interior daqueles países, para a cultura nacional dominante. (SILVA, 2007, p. 85)

 

No Brasil o multiculturalismo apresenta-se sobre perspectivas baseadas no fato de tratar-se de um país cuja demografia é construída a partir das relações inter-raciais. A prática de colonização e exploração da terra fez do Brasil um país capaz de abrigar as mais diferentes nacionalidades, culturas, raças.

 

Essa histórica característica brasileira de, por diferentes razões, receber em seu solo povos do mundo inteiro faz com que sua formação demográfica seja delineada pelas mais variadas culturas. Nesse contexto, nos parece paradoxal pensar que um país com composição tão plural tenha suas relações sociais pautadas na homogeneização cultural.         

 

3. DESCRIÇÃO DA PESQUISA

O presente trabalho refere-se à apresentação do desenvolvimento, metodologia e resultados de uma dissertação de mestrado realizada no biênio 2016 e 2017 cujo o título é A construção do currículo a partir das culturas que emergem a partir das classes populares: Uma proposta de estudos. A pesquisa propôs como principal objetivo investigar em que medida a perspectiva multicultural atende às demandas curriculares relacionadas à diversidade presente no cenário social e educacional. Em consonância ao objetivo geral, foram propostos os seguintes objetivos específicos: Ressignificar a compreensão sobre o currículo a partir da leitura e valorização das experiências extramuros escolares dos alunos; Estreitar as relações entre escola e comunidade através do viés do diálogo; Investigar a diversidade sociocultural dos alunos;

 

O trabalho configurou-se como observacional qualitativo, cuja metodologia apoiou-se nos estudos etnográficos por prever uma maior interação entre pesquisador e o universo a ser pesquisado. Para a coleta de dados foram realizadas entrevistas com membros da Escola Estadual Municipalizada Gustavo Armbrust, localizada no município de Duque de Caxias. A população consistiu em uma amostragem de quatro participantes, mais especificamente, um representante do segmento da direção, um representante do segmento de pais, um representante do segmento de apoio, um representante do segmento de docente e 28 alunos de uma única turma que cursou em 2016 o 4º e, posteriormente, o 5º ano de escolaridade já em 2017.

 

Para a análise dos dados foi utilizado o método de amostragem intencional ou também identificada como amostragem por julgamento que trata-se de uma amostra não probabilística, cujo objetivo nesta pesquisa, especificamente foi identificar a intenção dos sujeitos pesquisados em seus fazeres. Daí a opção por este tipo de amostragem e não outro que envolvessem um quantitativo maior de elementos da população escolar. Assim, foi selecionado apenas um representante de cada segmento da unidade escolar. A escolha se deu ora pela experiência de trabalho na comunidade em questão, ora por profissionais que além de trabalharem na referida localidade, moram no entorno da escola e apresentam conhecimentos sobre a realidade socioeconômica e cultural a qual os alunos atendidos estão submetidos. Assim, tal método de análise prevê uma maior intervenção da pesquisadora no que se refere à seleção dos sujeitos pesquisados dentre o grupo. (MARCONI & LAKATOS, 2002)

 

Foi reconhecido que a opção pelo método apresenta como limites a impossibilidade da generalização dos resultados observados, muito embora o objetivo da pesquisa não tenha sido elencar quantitativamente práticas e sujeitos que apresentem um olhar em relação às experiências extramuros dos alunos, mas sim identificar como tais profissionais, em suas práticas cotidianas, percebem tal necessidade e de que maneira conseguem mediá-la no espaço-tempo da sala de aula dentro de um dado contexto.

 

Assim foi compreendida a inviabilidade da amostragem probabilística a ser aplicada especificamente nessa pesquisa dado os demais objetivos previstos apresentados por esta. O caráter técnico presente na amostragem probabilística não se aplicou ao desenvolvimento do estudo em questão por não refletir a abordagem qualitativa desejada.

 

3. RESULTADOS A PARTIR DA PESQUISA DE CAMPO

A escola pesquisada atende especificamente a crianças da educação infantil e das séries iniciais. Refere-se de uma unidade de ensino pequena, que atende a 319 alunos da pré-escola ao 5º ano de escolaridade. É considerada uma escola de fácil acesso, com perfil urbano. Está localizada no primeiro distrito de Duque de Caxias, aproximadamente a 5 Km do centro da cidade.

A comunidade atendida pela Escola Estadual Municipalizada Gustavo Armbrust é em sua maioria residente do bairro Olavo Bilac. A escola também atende a crianças oriundas dos bairros vizinhos, como Jardim Leal e Periquitos. O bairro Olavo Bilac está localizado no 1º distrito do município de Duque de Caxias e tem limite com o município de São João de Meriti, Baixada Fluminense. Embora esteja próxima ao centro da cidade, ainda é uma região muito marcada pela ausência de investimentos públicos, sendo parte da comunidade afetada por questões relacionadas à falta de água, atendimentos ambulatoriais de saúde que não contemplam a toda população local, esgoto a céu aberto e outras questões relacionadas diretamente à infraestrutura básica. Apesar de adentrarmos no espaço geográfico dos alunos, percebemos um grande hiato entre escola e comunidade. Esta distância simbólica, fortalecida pela ausência de diálogos, impossibilita o (re)conhecimento da realidade sociocultural.

 

Embora a Baixada Fluminense seja historicamente marcada pelas ausências, os resultados apontaram práticas e trajetórias extramuros vivenciadas pelas crianças, sujeitos da pesquisa, e mostraram as possibilidades exercidas em suas infâncias nesse cenário. A partir das rodas de conversas e produção de imagens foi identificado que ao mesmo tempo se articulam em redes, ocupam-se também com outros recursos de caráter tecnológico, essas crianças ainda mantém as tradicionais brincadeiras coletivas de rua. Tratou-se, pois, de um estudo qualitativo sobre suas culturas, saberes e fazeres.

 

A escolha pela realização da pesquisa em uma unidade de ensino localizada no município de Duque de Caxias justifica-se não apenas pelo fato de morar na cidade e assim conhecer algumas de suas especificidades, mas também pela estreita relação de trabalho construída ao longo de 12 (doze) anos na rede pública, somado a 4 (quatro anos) na rede privada.

 

A familiaridade com a rede de ensino do município de Duque de Caxias por vezes favoreceu o desenvolvimento da pesquisa, entretanto configurou-se também como um desafio, evidenciando a necessidade de desnaturalizarmos o olhar em torno do tema de pesquisa.

 

Sair do lugar comum exigiu o esforço de desconstruir algumas concepções e verdades alimentadas ao longo de mais de 15 (quinze) anos de estudos e reflexões acerca do conceito de currículo e as especificidades trazidas pelos alunos. Nesse processo, inserir os sujeitos participantes no diálogo nos proporcionou o acesso a diferentes leituras sobre a realidade, bem como a desconstrução de concepções por vezes superficiais e estigmatizadoras.

 

Daí tão importante que essa pesquisa tenha se construído com a contribuição dos sujeitos participantes. Cada qual ao seu modo, a partir de suas perspectivas e experiências vividas ajudam-nos a costurar as ideias e ampliar as reflexões em torno desse universo tão complexo que é a escola.

 

Por meio das entrevistas com as profissionais da educação, buscamos identificar em suas narrativas estratégias utilizadas nas respectivas áreas de atuação que as permitissem conhecer parte da realidade socioeconômica do aluno.

 

Durante a realização da pesquisa, foi questionado aos profissionais da escola sobre suas experiências profissionais. Ao falarem sobre seu campo de atuação, tanto a diretora quanto professora mencionaram ter iniciado suas jornadas em unidades particulares. A diretora descreve a transição de trabalho da escola particular para a escola pública, ao passo que a pesquisadora questiona se a mesma havia se chocado com a mudança de realidade, sugerindo a ideia da escola pública como um lugar de desprestígio, de ausências, negação, tal como no imaginário de parte da sociedade. Na contramão da concepção implícita na pergunta, Helena responde:

 

Não foi uma impressão negativa não, foi ao contrário, porque antes eu trabalhava em uma escola privada, mas dentro de um projeto que era voltado para um público de comunidade, de favela. Eu fui trabalhar em uma escola em Xerém que era para a elite de Xerém, então me chocou o contraponto. Eu estava em uma escola particular com umas crianças super carentes e fui para a escola pública onde não havia essa carência de material, porque os pais contribuíam, eles queriam saber o que era necessário. Eu me lembro no primeiro dia o pai me perguntando qual a minha formação. Você estava ali com o caseiro do prefeito, o caseiro do cantor famoso, gente que queria saber Quem é você que está com meu filho? O que você vai fazer?  Eu me lembro que a diretora falou assim pra mim no primeiro dia Você não se incomode, mas você costuma fechar a porta? Eu Não, mesmo porque eu trabalhei em uma escola confessional católica e não se dá aula de porta fechada, se dá aula de porta aberta. Ela Eu quero saber quem é você. Então eu vou passar pelo corredor eu quero ouvir sua fala, seu proceder com os alunos. Era uma escola pública boa, uma sala ampla, com parquinho, crianças presentes, pais presentes, tudo que você propunha para os pais eles estavam ali juntos contigo, então não tive esse choque que era o contrário do projeto que eu vivia lá. Você ficava catando o pai em casa, pedindo paro orientador ir em casa Não veio há tantos dias! Então vamos lá ver o que está acontecendo, professora? (HELENA)

 

As comparações em relação a ambas esferas, pública e privadas, são mencionadas também pela docente e a mesma, na defesa pelo espaço que optou por trabalhar, manifesta seu repúdio quanto ao preconceito atribuído à escola pública pela sociedade:

 

Eu ficava aborrecida em ver o preconceito das pessoas. Uma vez eu fui numa reunião do meu neto na escola particular e a professora falava mal das crianças que estavam com dificuldades e ela falava que essas crianças vieram da escola pública e que ela estava cortando um dobrado e eu não aguentei. Naquela hora eu pedi pra falar e falei Olha, pelo contrário, nós na escola pública recebemos muitos alunos da escola particular, primeiro porque a escola chama os pais e convida para os pais poderem retirar as crianças e segundo que os pais ameaçam quando falam para as crianças Ah! Você não quer nada! Vou colocar você na escola pública. Então nós temos muitos alunos assim, por desistência dos pais, por discriminação. (PILAR)

 

A concepção pejorativa construída em torno da escola pública por parte da população é notória. No discurso citado, a escola é vista como um espaço destinado às crianças que não se enquadram nos moldes ditados pela rede privada de ensino. Visto tantas vezes como o espaço de negação, a escola assume a responsabilidade por receber e educar a criança que a ela já chega discriminada, estigmatizada, marcada e por vezes desassistida por quem compete:

 

Esse é um aluno que na maioria das vezes tem uma família que não está estruturada, que não está preocupada com a educação, porque quando ela está preocupada com a educação ela vem na reunião de pais, ela questiona o nosso trabalho. (HELENA)

 

Este aluno na escola pública é o retrato de todas as dificuldades que estamos enfrentando hoje por parte dos governantes, por parte da família e por parte de alguns professores. Eu como profissional trabalho em uma época que estamos desprovidos de tudo (...) Então eu vejo que os alunos da escola pública estão sendo reféns. (PILAR)

 

As crianças são as mais vulneráveis aos problemas sociais e econômicos e, portanto, as mais afetadas não apenas em relação aos aspectos materiais como também às questões de ordem moral. A experiência cotidiana com essas crianças amplia o olhar sobre o contexto econômico da família bem como o reconhecimento de que este interfere diretamente nas práticas de ensino aprendizagem: A gente é preocupada com gente, não só com escolarização, mas preocupada com a família também. Se você não comeu, como é que você vai vir à escola? (Helena) Os problemas sociais chegam à escola e embora as limitações sejam muitas, não há como ignorá-las ou excluí-las do contexto educacional. Casos relacionados à saúde das crianças, abuso sexual e fome são lembradas pelas profissionais da unidade em suas entrevistas.

Todos os sujeitos entrevistados fizeram menção à sensibilidade do olhar tão importante na relação com os alunos e necessário para a leitura de quem é essa criança: No dia a dia, você olha pro aluno, você já tem uma base. (Pilar) Os relatos não se inclinam na defesa do olhar estereotipado, que demarca, que segrega. Mas no olhar investigador, no olhar que é capaz de perceber que o aluno tem algo a revelar para além das respostas que a escola lhe cobra:

 

Eu acho que está no olho. Você olha pra criança e você sente. Está no olho. Ela te olha te chamando, te pedindo ajuda. Eu me lembro a primeira vez que eu vim pra essa escola, eu me lembro de um aluno, o Paulo Daniel. Ele arrumou uma briga na sala de aula, ele se estapeou e brigou. E ele muito pequenininho, ele brigou com um maior do que ele. Eu conversei com ele, eu o adverti  Não pode acontecer isso, você não pode na escola dar espaço pra isso. E quando tiver ninguém pra falar, você me procura.  E várias vezes eu passava na secretaria e ele estava na porta, ele só ficava assim, botava a acara na porta e ficava me olhando. Na terceira vez que ele me olhou eu saí e falei Você quer falar comigo, você não quer falar? Você quer falar comigo? Aí, ele começou a rir. Ele não queria falar nada demais. Ele queria contar da vida dele. Às vezes a criança... você olha pra ela e você vê que... como ela tem a sensibilidade de descobrir o que a gente tem, que a gente não está num dia legal Você está triste? Porque ela te olha todos os dias e te diz que você está triste, a gente também sabe quando eles estão tristes, quando eles têm uma reação que está gritando por uma atenção, por um papo. Tem alguém te pedindo ajuda ali. Primeira coisa que você olha, quando eu sei que o meu filho não está legal, é o olhar do meu filho. Aquele olho caído, sem brilho. Você sabe. Você tem que olhar. Acho que o olhar fala tudo. É o espelho da alma, realmente. Se a alma não está feliz, o olho não está, não brilha e aí você tem que ter sensibilidade e até parar com essa questão de currículo e conteúdo. (HELENA)

 

            Embora atenda a todas as crianças da escola, a merendeira Dulce também afirma reconhecer no olhar dos alunos quando estão diferentes: Quando eu vejo que ele (o aluno) está meio caidinho, meio tristinho eu já procuro saber Filho porque que você... você está bem? Por que que você está assim? (...) Eu pergunto Como você está?

 

Ao longo dos relatos, a leitura realizada em relação aos pais e/ou responsáveis vai ganhando novas formas. Se por um lado, a escola aponta críticas reais em relação à ausência da família, por outro, seu discurso revela ter ciência dos fatores que, muitas vezes, comprometem um melhor acompanhamento dos pais. Tal percepção em relação às limitações da família podem ser observadas nos discursos da direção, professora e merendeira.

 

As observações realizadas vão revelando um considerável conhecimento da escola em relação aos alunos e seus familiares. Em comum na fala das três profissionais consiste também no fato de cada uma delas, em circunstâncias distintas, já terem ido à casa dos alunos. O movimento de ir ao aluno consiste numa das práticas adotadas pela escola ainda que de maneira não institucionalizada. Como alternativa, os profissionais adotam outros mecanismos de acesso às experiências extramuros:

 

Logo quando começou o P.P.P na escola a gente começou a fazer a pesquisa para descrever a parte física, aquela parte de gráficos da moradia, então eu mandei pra casa uma pesquisa sobre a moradia, a questão família. Então quando essa pesquisa voltou pra minha mão eu descobri que uma criança não morava em uma casa, morava em uma caverna, um buraco dentro da favela. Morava ela, a mãe, o pai e as irmãs e eu fiquei assim muito comovida com aquela situação, aí eu comecei a ficar mais próxima da mãe dessas duas meninas e procurei dar mais atenção a essas meninas. Fui conversando com a mãe, aconselhando e tudo. O que eu pude fazer, eu fiz. Depois eu fiquei sabendo que elas já estavam com uma casinha de alvenaria. Quer dizer, é uma coisa que não tem nada a ver com o currículo em si, com o currículo oficial, mas é bom saber o que acontece com seu aluno fora da escola. (PILAR)

 

A fala da professora, carrega algumas concepções em torno do eixo currículo e culturas, como em situações binárias, opostas. A ideia de que aspectos inerentes às culturas dos alunos não fazem parte do currículo oficial, embora sejam importantes, revela-se muito comum nas falas, consistindo em um verdadeiro desafio. Mais uma vez a escola esbarra no fator tempo como um entrave ao (re)conhecimento das experiências extraescolares dos alunos.

 

O diálogo com os alunos foi construído por meio de outras rotas. Pedimos que falassem sobre suas rotinas, brincadeiras preferidas, lugares que costumam frequentar para a práticas dessas brincadeiras, o que mais fazem para se divertir, com quem convivem. A conversa com os alunos se revelou muito importante para a desconstrução de alguns conceitos.  A região em a escola está inserida configura-se como um espaço de violência, contudo por meio das imagens, os alunos mostraram que tal aspecto não foi predominante para que se mantivessem reclusos em suas casas (Para preservar as identidades dos alunos, mantivemos seus nomes em sigilo, substituindo-os por letras do alfabeto). Quando perguntados sobre o que costumam fazer para se divertir, boa parte dos alunos relatou que as brincadeiras coletivas nas suas respectivas ruas ainda fazem parte do universo infantil (Figuras 1 e 2):

 

Figura 1: Desenho da aluna A-Pique garrafão.

Figura 2: Desenho do aluno B

 

As conversas construídas revelaram ainda que muito embora estes façam parte de um contexto econômico desfavorecido, o fator pobreza não é elemento chave, tampouco determinante na construção de um currículo alternativo ao currículo oficial. Por meio dos desenhos os alunos mostraram como na prática vêm se relacionando com as mídias e demais recursos tecnológicos. A figura 3 descreve a relação de uma das alunas com a internet:

 

Figura 3: Desenho da aluna C

 

Ao explicar sobre seu desenho a aluna disse que passa algum tempo jogando vídeo game. No canto esquerdo desenhou uma câmera sobre um tripé onde relatou dedicar-se ainda a gravar suas partidas, publicando-as posteriormente em um canal no YOUTUBE com o objetivo de ensinar as outras crianças e demais interessados as estratégias de jogos. A experiência da aluna abre-nos um leque de reflexões em relação ao potencial dos alunos para uma série de usos que eles vêm fazendo da internet. A produção de vídeos, mesmo os mais caseiros, implica uma série de conhecimentos e habilidades: Manipulação dos recursos oferecidos minimamente por um aparelho de celular, edição de cenas, comunicação adequada ao público, criatividade na escolha dos temas, espontaneidade, outros.

 

A aluna traz à tona ainda a ideia de que uma criança de base periférica, como tantas outras, pode alcançar dezenas e centenas de pessoas ao fazer uso da internet. A proposta apresentada pelo YOUTUBE a partir do slogan inicial transmita você mesmo, amplia as possibilidades das massas expressarem ao mundo suas experiências, ideias, conhecimentos, denúncias e o que mais desejarem falar. A internet vem alcançando cada vez mais parcelas da sociedade, configurando-se num espaço fértil para partilha da palavra e as grandes massas vêm de fato se apropriando dessa ideia e fazendo diferentes usos.

 

Por meio da observação dos desenhos elaborados pelos alunos, outras categorias vão sendo elucidadas ainda que de forma subjetiva, tais como a cor, gênero, religião, outros. Em meio as conversas as crianças apontaram conceitos socialmente construídos em torno das questões étnico-raciais. A autorrepresentação das crianças negras chamou-nos a atenção, ratificando a necessidades dos estudos em torno das culturas e da diversidade de povos que compomos. A turma em questão refletia o retrato da população brasileira, no que se refere a cor. Apesar da maioria das crianças ser negra, em seus desenhos se retratam como crianças brancas, chegando a se colorir com o que se convencionou chamar de cor da pele, um tom rosado, que compõe a paleta de cores da maioria das marcas de lápis e assim a identificam em suas embalagens:

 

Figura 4: Desenho da aluna D

 

O autorretrato nos impulsiona a pensar sobre a negatividade que as pessoas de origem negra assumem em relação às suas imagens, seus corpos desde muito cedo. Essa incorporação da imagem do branca não pode ser lida apenas como uma opção. 

 

A história nos revela a forma desigual com que as pessoas negras foram tratadas desde os mais variados processos de escravidão que se deram em diversos países até os dias atuais. A linguagem utilizada para se referir ao negro, os cargos ocupados pelos mesmos no desigual mercado de trabalho, a diferença salarial posta entre negros e brancos mesmo quando assumem funções iguais denunciam o lugar subalterno que os negros ainda ocupam nessa sociedade.

 

Dia a dia atribui-se ao negro a imagem do negativo, enquanto ao branco são associados elementos simbólicos considerados como positivos. Em Pele negra, máscaras brancas, Fanon (2008) analisa a relação de racismo construída por meio dos processos de colonização e subalternização do homem branco em relação ao homem negro. Embora o autor martinicano trate da condição do negro antilhano, o mesmo reconhece que suas análises contemplam o homem colonizado de diferentes regiões em um contexto moderno pós-segunda guerra mundial:

Na Europa, o Mal é representado pelo negro. É preciso avançar lentamente, nós o sabemos, mas é difícil. O carrasco é o homem negro, Satã é negro, fala-se de trevas, quando se é sujo, se é negro- tanto faz que isso se refira à sujeira física ou à sujeira moral física ou à sujeira moral. Ficaríamos surpresos se nos déssemos ao trabalho de reunir um grande número de expressões que fazem do negro o pecado. Na Europa, o preto, seja concreta, seja simbolicamente, representa o lado rum da personalidade. Enquanto não compreendermos essa proposição, estaremos condenados a falar em vão do problema negro. O negro, o obscuro, a sombra, as trevas, a noite, os labirintos da terra, as profundezas abissais, enegrecer a reputação de alguém; e do outro lado: o olhar claro da inocência, a pomba branca da paz, a luz feérica, paradisíaca. (FANON, 2008, p.160)

 

As crianças elucidaram por meio das relações que constroem com os colegas ou por meio de discursos apresentados à pesquisadora forte reprodução dos modelos comportamentais adotados pela sociedade e evidenciaram como importante demanda a discussão acerca da diversidade e múltiplas culturas. As falas imbuídas de discriminação e práticas de bullying para com os próprios colegas em razão da diferença de cor ou de idade são comunicadas por meio dos discursos e também por meio das imagens:

 

Figura 5: Desenho do aluno E

 

Em outro encontro com a turma, dessa vez com o objetivo de identificar como percebem o espaço escolar, o aluno E opta por desenhar o colega mais velho da turma. Não se acanha em contextualizar seu desenho: Tia, eu desenhei os meus colegas ... Aí, Aluno O, foi mal eu ter desenhado o seu pescoço. Os demais alunos riem. Sério, o aluno exposto não retruca, não se defende, não responde. Segue calado.

 

As práticas de bullying no universo escolar são muito comuns. Embora falemos da importância do respeito ao próximo, a cultura do rótulo parece um campo pouco permeável e as crianças seguem trazendo à tona problemas recorrentes na/da sociedade. Somos espelho dela e seguimos reproduzindo suas mazelas. As relações de poder, opressão, estigmatização, tal como ocorrem na sociedade, são rapidamente apropriadas e reproduzidas na sala de aula ora pela cor, ora pelo gênero, ora pela capacidade cognitiva ou mesmo pela incapacidade de se adequar às normas estipuladas na/pela escola.

 

Nesse mesmo exercício de escuta aos alunos identificamos que o preconceito às pessoas de religiões afro-brasileiras também ecoa na sala de aula: “Tem um cara na minha rua, ele é macumbeiro, mas ele é legal!” (Aluna C) Tal como os adultos, as crianças intentam dividir o mundo em dois e assim vão criando categorias para coisas e pessoas. Desde muito cedo vão assimilando que o mundo deve ser repartido em fragmentos, atribuindo rótulos às pessoas e hierarquizando-as de acordo com sua religião, sua cor, gênero, idade.

 

Os discursos reproduzidos pelos alunos colocam-nos o desafio de pensar um currículo estruturado no reconhecimento e valorização dessas diferenças e de tantas outras como cor e gênero. Para o tratamento dessas questões, a prática de um currículo alinhado às perspectivas multiculturais em oposição a um currículo monocultural, nesse estudo, se revelou como uma importante alternativa.

 

4.CONSIDERAÇÕES FINAIS

O diálogo com os alunos sobre parte de suas experiências ratificou a necessidade da escuta aos mesmos como uma prática cotidiana a fim de que seja desvelado um universo pouco explorado pela escola. E sobre esse universo não nos referimos às ausências, às deficiências, nem mesmo às múltiplas precariedades possivelmente sofridas por essas crianças. A conversa com os sujeitos trouxe a possibilidade de pensar como tais crianças constroem conhecimentos diversos mesmo com as dificuldades que lhes são postas.

 

É nesse sentido que a opção pelos estudos em torno do currículo numa perspectiva multicultural se revelou como uma importante ferramenta capaz de interpretar as demandas da escola no que se refere ao universo plural que ela representa. Dado a sua não homogeneidade, visto a presença de identidades plurais, uma leitura multicultural sobre ela nos insere numa perspectiva pedagógica voltada às diferenças como importante categoria a ser considerada na construção do currículo escolar.

 

Cumpre salientar que a pesquisa em questão refere-se apenas a um recorte do contexto escolar e das experiências extramuros de um dado grupo de alunos. O olhar captado se deu em torno de um fragmento do complexo e vasto cenário que é a escola. Trata-se, pois, de uma leitura parcial construída a partir das narrativas dos sujeitos, não devendo, pois, ser interpretada como o retrato da realidade da escola pesquisada, nem mesmo da rede pública de ensino a qual está inserida.

 

5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS    

Brasília. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9394.ht.  Acesso em 17. Jun. 2017.

_______. Parâmetros Curriculares Nacionais, 1997.

CANEN, Ana; CANEN, Alberto Gabbay. Rompendo fronteiras curriculares: O multiculturalismo na educação e outros campos do saber. Currículo sem Fronteiras, v.5, n.2, pp.40-49, Jul/Dez, 2005. Disponível em http://www.curriculosemfronteiras.org/vol5iss2articles/canen.pdf Acesso em 23.jan.2017.

FANON, Frantz. Pele Negra Máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11ª Ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.

SILVA, Tomaz Tadeu da (org.). Documentos de Identidade: Uma introdução às teorias do currículo. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.

MARCONI, Marina; LAKATOS, Eva Maria. Técnicas de Pesquisa. São Paulo: Atlas Ed., 2002.

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