segunda-feira, 1 de junho de 2020

CONCEPÇÕES DE RELIGIOSIDADE PRESENTES NOS DISCURSOS INFANTIS

CONCEPÇÕES DE RELIGIOSIDADE PRESENTES NOS DISCURSOS INFANTIS

Revista Teologia em Diálogo 

(ISSN 2596-2949)

 


Caroline Delfino dos Santos

Doutoranda e mestre em Humanidades, Culturas e Artes (Unigranrio), especialista em Organização Curricular e Prática Docente na Educação Básica (UERJ), orientadora educacional e professora na rede municipal de Duque de Caxias/RJ.

 







Jacqueline de Cassia Pinheiro Lima

Pesquisadora Colaboradora do PPG em Cognição e Linguagem, na UENF, Pós-Doutoranda com Bolsa FAPERJ (Pós-Doutorado Sênior - 2019-2020). Jovem Cientista do Nosso Estado - FAPERJ (2015-2018). Pós Doutora pelo Programa de Pós Graduação em História da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Doutora em Sociologia pelo Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (2006), tendo nos anos de 2003 e 2004 feito seu Doutorado Sanduíche no Instituto de Urbanismo de Paris, Universidade de Paris XII. Bacharel e Licenciada em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1996), Mestre em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1999). 

Jurema Rosa Lopes Soares

Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (2003). Pesquisadora do Départament d?Ergologie-Université de Provence (França). Mestre em Educação pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (1994) e graduada em Pedagogia pela Universidade Federal Fluminense (1979). Bolsista de Produtividade em Pesquisa 1-A/ UNIGRANRIO/FUNADESP. Professor Adjunto Doutor I da Universidade Federal de Mato Grosso (Aposentada). Atualmente é Professora e Pesquisadora da Escola de Ciências, Educação, Letras, Artes e Humanidades da UNIGRANRIO, Docente Permanente do Programa de Pós-Graduação em Humanidades, Culturas e Artes-UNIGRANRIO. Docente Colaboradora do Programa de Pós-Graduação em Ensino das Ciências- UNIGRANRIO. Coordenadora Institucional do PIBID/UNIGRANRIO (agosto/2018 -abril de 2019).Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Administração de Unidades Educativas, atuando principalmente nos seguintes temas: ergologia, trabalho, formação do educador, prática pedagógica, conhecimento, cultura, linguagem e formação profissional.


Resumo

Considerando ser a escola um cenário de diversidades e desigualdades sociais políticas e culturais, a discussão em torno das diferenças e dos seus efeitos na relação entre os sujeitos revela-se como uma importante ferramenta no exercício de reflexão sobre as práticas de (in)tolerância tão presentes neste espaço. Historicamente, a escola tende a projetar nos alunos um modelo eminente de personalidade baseada quase sempre nos valores aceitos socialmente: a cultura do masculino, hétero, cristão, branco. Neste trabalho, buscamos analisar discursos (re)produzidos por crianças, onde identificamos marcas de alteridades em falas relacionadas a pessoas praticantes de religiões não cristãs. Tratam-se de alunos do 5º ano de escolaridade de uma dada escola pública municipal na Baixada Fluminense, cuja idade varia entre 10 e 14 anos. Em seus discursos, as crianças vão elucidando forte reprodução dos modelos comportamentais adotados pela sociedade. As falas imbuídas de preconceito às pessoas de religiões afro-brasileiras nos colocam o desafio de pensar um currículo estruturado no reconhecimento e valorização das diferenças não apenas de caráter religioso, como também de cor e gênero. Assim, pontuamos a necessidade de ampliarmos o debate sobre as diferentes formas de discriminação que regem as relações dentro da escola, afetando em especial àqueles e àquelas cujas marcas identitárias vinculadas à religiosidade, em certa medida, distanciam-se de padrões culturalmente aceitos.

Introdução

De acordo com a Declaração Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Intolerância e Discriminação Fundadas na Religião ou nas Convicções o conceito de intolerância refere-se a:

 

Intolerância e discriminação baseadas na religião ou nas convicções é considerada toda a distinção, exclusão, restrição ou preferência fundada na religião ou nas convicções e cujo fim ou efeito seja a abolição ou o fim do reconhecimento, o gozo e o exercício em igualdade dos direitos humanos e das liberdades fundamentais. (Declaração Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Intolerância e Discriminação Fundadas na Religião ou nas Convicções, 1981)

 

            Muito embora ao longo do texto apresentemos uma crítica aos conceitos empregados ao termo tolerar, o presente artigo debruça-se a analisar práticas discursivas permeadas por aspectos de discriminação e intolerância (re)produzidas por crianças ainda em idade escolar. A escola, por estar inserida em um meio social ditado pelas diferentes formas de preconceito, compõe também um cenário onde falas depreciativas em relação ao outro são, não apenas, ampliadas como potencializadas pelos sujeitos que a constituem.

Dadas as múltiplas formas de discriminação observadas às minorias sociais, apresentamos como recorte o (des)valor atribuído às pessoas cuja fé e religiosidade pautam-se na prática do candomblé. Em análise aos discursos infantis, observamos que para além da atribuição negativa dada às pessoas pertencentes às religiões de matrizes africanas há forte inclinação à comparação com religiosos de outras fundamentações, em especial a cristã.

De acordo com dados apresentados pelo censo de 2010, o número de pessoas que se declaram como seguidoras do candomblé, umbanda e outras religiões de origem afro-brasileira corresponde a 0,31% da população brasileira, uma inclinação de quase 0,1% se comparado ao censo do ano de 1991. Ataques frequentes a centros espíritas recentemente divulgados na mídia nos ajudam a compreender parte dessas estatísticas ou pelo menos justificam a não declaração de muitos seguidores. Em contrapartida, os seguidores de religiões de fundamentação cristã seguem alcançando as maiores estatísticas do IBGE, com um crescimento da população que se autodeclara como sendo evangélica.

Uma leitura mais apurada dos dados apresentados somada à análise das declarações que sustentam os discursos dos alunos no que se refere à religião do outro nos permite pensar na urgência de um currículo alinhado ao respeito às diferenças de cunho religioso, de gênero, de raça e tantas outras marcas que imprimem a constituição da identidade. Em campo, os relatos revelam ainda que, muito embora as crianças ainda não tenham consolidado uma concepção precisa a respeito do que se trata uma denominação, já manifestam forte reprodução da intolerância às denominações que não se articulam às suas.

Para essa reflexão, nos debruçamos sobre os conceitos de identidade, diferença, diversidade, normalidade e tolerância trazidos por Canen & Canen, Hall, Silva e Cardoso.

No campo da educação, não é suficiente apenas o reconhecimento e respeito as diferenças, mas pensar e discutir como tais diferenças foram socialmente construídas, quase sempre resultando em desigualdade e discriminação. Consideramos, por fim, que a religião proferida por cada pessoa é parte inerente de sua identidade traduzindo-se como expressão da sua concepção de vida e cultura. Muito embora, a escola configure-se como uma instituição laica, em tempos de violação dos direitos da pessoa humana, é preciso trazer o debate para a sala com vistas ao combate das formas de discriminação, priorizando o respeito à diversidade.

           

1.      Identidade e diferença, algumas considerações

 

Pensar em uma pedagogia que atenda à diversidade cultural presente na escola pública brasileira requer que tenhamos em pauta um aprofundamento teórico em torno de como as identidades e diferenças são construídas.

Para conceituar a identidade, Canen & Canen apresentam três dimensões:

 

A identidade individual é compreendida como aquela constituída da pluralidade de marcadores que perfazem a constituição dos sujeitos, eles próprios híbridos e plurais. A identidade coletiva refere-se a algum marco da identidade percebido como central na construção de sua história de vida e das relações desiguais e preconceituosas que a atingem. (...)Por outro lado, denominamos identidade institucional o conjunto de marcadores que caracterizam um ambiente institucional, no marco das tensões entre as identidades individuais plurais, as identidades coletivas e um projeto de instituição que se deve construir.  (CANEN & CANEN, 2005, p. 43) 

Para uma melhor compreensão da dimensão individual, Canen & Canen relacionam a identidade aos diversos marcadores inerentes à constituição da própria pluralidade do sujeito. Tratam-se de marcadores de gênero, cor, religião, classe socioeconômica e outros, que juntos compõem uma rede resultando na identidade individual.

Um olhar sobre o conceito de identidade coletiva nos permite empreender que ela se dá por meio do encontro de diferentes pessoas em razão de uma dada característica individual. A exemplo, os grupos que se organizam em razão das questões de caráter religioso.

            Ainda na busca por embasamentos teóricos que sustentem o conceito e a discussão sobre a identidade, recorremos a Hall, que apresenta três perspectivas diferentes:

 

O sujeito do Iluminismo estava baseado numa concepção de pessoa humana como um indivíduo totalmente centrado, unificado, dotado das capacidades de razão, de consciência e de ação, cujo centro consistia num núcleo interior que emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia e com ele se desenvolvia ainda que permanecendo essencialmente o mesmo- contínuo ou idêntico a ele. (...) pode se ver que essa era uma concepção muito individualista. De acordo com a concepção sociológica, a identidade é formada na interação entre o eu e a sociedade. (...) O sujeito pós-moderno é conceptualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. A identidade torna-se uma celebração móvel: formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos representados ou interpelado nos sistemas que nos rodeiam. (HALL, 2006, p.11-13)

 

            Se na conceituação do sujeito do Iluminismo é possível a compreensão que a identidade era a essência do eu, na perspectiva sociológica, o eu-real é formado e modificado num diálogo contínuo com os mundos culturais exteriores e as identidades que esses mundos oferecem. (HALL, 2006) As transições da percepção da identidade são interpretadas pelo autor como constantes oscilações do tempo moderno. O deslocamento de um, implica no câmbio da outra. A exemplo, Hall atribui ao fenômeno da globalização à contínua mutação dos conceitos de identidade, bem como sua pluralização e até os entrelaçamentos identitários.

No esforço de compreender o conceito de identidade, buscamos, pelas lentes de Silva, um importante estudioso do campo do currículo, ampliar tal percepção partindo de uma análise sobre o que ela não é:

 

Primeiramente, a identidade não é uma essência; não é um dado, não é um fato-seja da natureza, seja da cultura. A identidade não é fixa, estável, coerente, unificada, permanente. A identidade tampouco é homogênea, definitiva, acabada, idêntica, transcendental. Por outro lado, podemos dizer que a identidade é uma construção, um efeito, um processo de produção, uma relação, um ato performativo. A identidade é instável, contraditória, fragmentada, inconsistente, inacabada. (SILVA, 2014, p. 96)

 

 

As teorias sobre o currículo dentro de uma perspectiva pós-críticas vêm caminhando para a construção de um discurso favorável ao respeito às culturas, bem como objetivando a promoção do diálogo entre as diferenças. A partir das análises de Silva, é importante não perdermos de vista a superficialização presente no tratamento dado à discussão em torno da identidade e diferença. O reconhecimento da temática e sua elucidação não é suficiente para dar tônica a toda sua complexidade. É essencial que se procure questionar e pesquisar a fundo como tais diferenças são socialmente produzidas e mantidas nos discursos atuais, inclusive nos espaços de formação, sendo amplamente ecoados por crianças e adolescentes.

Se por um lado a diferença é entendida como resultado de diversificadas identidades, Silva nos propõe pensar a construção da identidade a partir das diferenças e por meio de uma relação de dependência mútua, sendo, pois, indissociáveis. Dentro dessa perspectiva, a diferença não é um subproduto da identidade. Não se trata de um resultado, mas de um processo capaz de delinear as identidades e reproduzir diferenças outras. Mais que um processo, a diferença é, em certo sentido, um processo de produção simbólica e discursiva (SILVA. 2014. P. 81) capaz de manter as relações de poder em proporções assiméticas.  Trata-se, pois de relações sociais hierárquicas, quase sempre pautadas em disputas de poder e confrontos resultantes da imposição de aspectos da identidade de um ou mais grupos a grupos historicamente subalternizados. Encontram-se enviesados nessas relações, aspectos outros, tais como inclusão/exclusão, identidade/alteridade e eu/outro que evidenciam uma sociedade pautada nas oposições binárias. Um mundo polarizado.

A perspectiva criticada por Silva constrói-se sobre a ideia de que a identidade se autossustenta, fazendo, pois, alusão a si própria. Ela se constrói em oposição à outras identidades, partindo dos aspectos que a distingue das demais. Nesse ínterim, o eu é posto como referência em relação ao outro, indicando a posição do sujeito que fala, atua e que se impõe aos demais. Tais condutas reafirmam a divisão do mundo em polos. E por divisão, não nos referimos às práticas de partilha tão necessárias à vida em sociedade, mas à separação e categorização de povos em grupos cada vez mais rivais, cujas mediações são pautadas em lógicas binárias: Ou se é isso ou se é aquilo. Cumpre destacar a supremacia confirmada de alguns grupos em relação a outros.

A problemática o outro e eu pode ser lida também nos conflitos instaurados em diferentes sociedades, em diferentes tempos cerceando uma cultura em razão de outra. E assim, as relações sociais vão sendo inscritas por meio das diferenças naturais e das que são (re)produzidas.

2.      A lógica do tolerare

As práticas que se apoiam na construção de um currículo que pregue o respeito e a tolerância às múltiplas identidades incorrem no equívoco de tratar a questão da identidade e diferença de forma superficial, não alcançando o cerne da discussão que é um aprofundamento sobre como tais elementos da cultura são produzidos socialmente. Muito embora os discursos a favor da tolerância e respeito exalem um ar de favorecimento ao diálogo entre as culturas na sociedade e no ambiente escolar, como discutido por Silva, tais propostas caminham, em certo sentido, para a banalização da ideia de que as diferenças são fabricadas e, portanto, sustentam-se a partir das relações de poder:

 

Pedagogicamente as crianças e os jovens, nas escolas, seriam estimulados a entrar em contato, sob as mais variadas formas com as mais diversas expressões culturais dos diferentes grupos culturais. Para essa perspectiva a diversidade cultural é boa e expressa, sob a superfície, nossa natureza humana comum. O problema central, aqui, é que esta abordagem simplesmente deixa de questionar as relações de poder e os processos de diferença. Em geral, o resultado é a produção de novas dicotomias, como a do dominante tolerante e do dominado tolerado ou a da identidade hegemônica mas benevolente e da identidade subalterna mas “respeitada”. (SILVA, 2014, p.73)

 

Nesse contexto, tratar pedagogicamente as culturas religiosas no âmbito da tolerância, consiste em marcar a identidade por meio das diferenças, não de forma positiva, mas pautada na construção simbólica de superioridade, ainda que de forma subjetiva e subliminar.

A palavra tolerar vem do latim tolerare. De acordo com o dicionário Michaellis, o termo significa levar com paciência, suportar com indulgência. Condescender com; dissimular certas coisas, sem, no entanto, as consentir expressamente, uma vez que não sejam lícitas. Ainda em observação aos significados atribuídos, podemos identificar que tolerar refere-se a permitir o livre exercício de (crenças ou cultos religiosos). Admitir, dar tácito consentimento. Assimilar, digerir, suportar;

Com alguma frequência os veículos midiáticos vêm apresentando, por meio de algumas publicidades em prol das pessoas com deficiência, campanhas que se utilizam do termo em questão para sensibilizar a sociedade a desenvolver olhares outros em torno da pessoa com necessidade especial. Ao que parece, tais campanhas são de iniciativa do governo e de organizações não governamentais que lidam com pessoas especiais e enfrentam cotidianamente não apenas as limitações provocadas pelas mais variadas síndromes como esbarram nos limites inerentes à própria sociedade que é enxergar a pessoa para além de sua necessidade específica.

Outros termos também são utilizados com o objetivo de adequarmos nossos olhares e comportamentos em razão da deficiência, como a palavra normal/normalidade, atribuindo ao que se convencionou socialmente como diferente o aspecto de normal.

Diante do exposto, nos questionamos o que é ser normal, qual o conceito social de normalidade? Quem e como são intitulados os normais dentro da sociedade? Porque é importante essa busca pela normalização? Porque encaixar as diferenças dentro de um dado padrão de normalidade? Para elucidar tais questões, nos apoiaremos nas contribuições de Foucault. Dada a amplitude do corpo teórico elaborado pelo mesmo, nos ateremos às construções referentes às relações de poder presentes no processo normalizador e normatizador. Para o início dessa abordagem, apresentamos a seguinte observação do autor:

 

O poder é essencialmente repressivo. O poder é o que reprime a natureza, os indivíduos, os instintos, uma classe. (...) Ser órgão de repressão é no vocabulário atual o qualitativo quase onírico do poder. Não será, então, que a análise do poder deveria ser essencialmente uma análise dos mecanismos de repressão? (FOUCAULT, 2007, p. 175)

 

Embora tenhamos nos remetido ao exemplo do tratamento dado à pessoa especial, entendemos que o âmago da questão pauta-se sobre o olhar em torno daquele que não se assemelha a um dado padrão. De igual maneira, tal como nos foi apresentado pelas estatísticas, as pessoas que seguem religiões de origem afro-brasileira são não apenas em menor número se comparado às demais religiões, como socialmente são vistas como minorias sociais e tratadas também com menor prestígio frente à população.

Ainda segundo Foucault, os sujeitos são constituídos a partir das múltiplas modalidades de subjetivação, contudo suas manifestações são regidas por variadas formas de controle. Neste sentido, cada um faz não o que quer, mas aquilo que pode; aquilo que lhe cabe na posição de sujeito que ele ocupa numa determinada sociedade, submetido aos ditames de instituições sociais e políticas. (SILVA, 2008). Também isso representa forte manifestação de poder, conduzindo a temática a níveis outros: Quem nos autoriza ao exercício do poder?

Em Vigiar e Punir, o autor faz menção a elementos utilizados pela/na escola com vistas a disciplinarização dos corpos, tal como os exames e punições. Tratam-se de mecanismos de normatização, tendo como finalidade a normalidade dos sujeitos. Assim, normal era/é considerado todo aquele que apresenta conduta compatível com os padrões estabelecidos pelas normas. Em contrapartida, aquele que desvia-se das regras entra na categoria de anormal:

 

Em certo sentido, o poder de regulamentação obriga a homogeneidade; mas individualiza, permitindo medir os desvios, determinar os níveis, fixar as especialidades, e tornar úteis as diferenças, ajustando umas às outras. Compreende-se que o poder da norma funcione facilmente dentro de um sistema de igualdade formal, pois dentro de uma homogeneidade que é a regra, ele introduz, como imperativo e resultado de uma medida, toda gradação das diferenças individuais. (FOUCAULT, 2007, 154)

 

A partir dos apontamentos citados, podemos observar que a regulamentação e demais dispositivos de regulação trabalham a favor da normatização, consequemente, da normalização. Vislumbrar o normal implica em homogeneidade, igualdade em oposição à pluralidade, diversidade, multiplicidade. Assim, os conceitos de normal/anormal são atribuídos aos sujeitos na medida em que estes se adequam aos processos de padronização ou não.

O termo tolerar vem sendo aplicado continuamente na reivindicação da igualdade de direitos pelos mais variados grupos minoritários, muito embora nem sempre sejam em minoria numérica, mas simbólica. Tratar as relações sociais no âmbito da tolerância, partindo da ideia do suportar, aguentar, ratifica a supremacia dos grupos não minoritários em relação às minorias sociais, dando-lhes a alternativa de respeitar ou não a sua identidade, mantendo-os na posição de superioridade dentro de uma hierarquia social.

O conceito atribuído ao sentido de tolerância, tal como apresentamos, precisa desvincular-se da ideia de aguentar as diferenças, caminhando para a superação das desigualdades que são construídas em relação às mais diversificadas identidades, tal como disserta Bauman:

 

A tolerância e o respeito às diferenças e a democracia são dois lados da mesma moeda, e seus destinos são inseparáveis. A crise de um é, simultaneamente, a crise do outro. Democracia sem tolerância e respeito pelo Outro é um oximoro, enquanto democracia com tolerância e respeito à diferença é um pleonasmo. (BAUMAN, 2016)

 

 As relações precisam se contrapor ao conceito de soberania simbólica de uns sobre os outros. Reivindicar a tolerância implica em reafirmar as relações de poder e negar a emergência de se estabelecer relações cada vez mais horizontais.

            Por detrás de uma suposta cultura da tolerância estão embutidos valores ligados à caridade, à benevolência do maior em relação ao menor. A construção histórica do conceito de tolerância parte especificamente do ponto de vista do opressor em relação ao oprimido, permeado por estruturas de tensão existentes entre identidade e diferença. A esse respeito, Cardoso, aponta-nos alguns esclarecimentos necessários à análise:

 

Os sentidos de tolerância, predominantes nos dicionários das línguas latinas, revelam a ideologia da cultura europeia em seu projeto de universalidade e homogeneidade pela dominação das outras culturas. No século XVI, o vocábulo latino tollerantia significa constância em suportar, permitir, condescender. Nessa acepção, a tolerância supõe uma relação humana entre desiguais, em que o superior faz concessões ao inferior. Assim, o verbo ‘tolerar’ aparece frequentemente como sinônimo de ‘suportar’ ou ‘aceitar com indulgência’. Nesses dois sentidos básicos estão presentes a postura discriminatória e superior dos conquistadores e colonizadores europeus em relação aos povos indígenas da América Latina.  Tolerar como ‘suportar’, aguentar’ nos remete ao sentido dado na medicina. O doente suporta (aceita) um tratamento indesejado, quando necessário. Aceita passar por uma situação desagradável e incômoda como único meio para atingir um bem maior. Daí a expressão: “suporta-se quando não há outro remédio”. Foi assim que os europeus viam a necessidade de tolerar os povos conquistados. A tolerância do conquistador (quando havia) em relação ao que era distinto e alheio à sua própria identidade, não expressava o reconhecimento da alteridade. Era vista como uma atitude necessária de suportar a presença do outro para preservar a ordem universal, pois com isso o civilizado estaria impedindo o comportamento violento natural dos povos indígenas.  (CARDOSO, S/D, p. 4)

 

            Não se trata, pois de um discurso que favoreça à diversidade, mas sim de uma terminologia que tem suas raízes históricas plantadas na aversão à cultura do não civilizado, do diferente, do menor. Contrapondo-se a este conceito, Cardoso remete-nos a uma outra concepção comprometida com a diversidade cultural dos grupos historicamente explorados e marginalizados, não mais em nome de uma cultura da dominação, mas em nome de uma cultura mais humanizadora. Pensando em um novo tratamento ao conceito, sugere a seguinte definição ao vocábulo:

 

Tolerância, s. f. Atitude de reconhecimento, na teoria e na prática, do outro como outro e de respeito mútuo às diferenças; - capacidade de diálogo, de compreensão e de respeito mútuo entre posições tolerantes com ideias e valores diferentes; - respeito aos direitos universais inalienáveis da pessoa humana; - reconhecimento da diversidade cultural, contrapondo-se à hegemonia de uma cultura que domina e marginaliza as outras; - resistência a tudo aquilo que provoca opressões e desigualdades sociais; - ação solidária na superação das desigualdades sociais; - valorização da diversidade cultural a partir da consciência clara do valor da própria identidade e de seus limites; - capacidade de cooperação para alcançar objetivos comuns; - atitude de solidariedade entre indivíduos, grupos, povos, nações e, também, dos seres humanos para com a natureza em geral. (CARDOSO, S/D, p. 11-12)

 

Retomando a discussão inicial, a identidade não consiste em uma versão contrária à diferença, a identidade apoia-se na diferença, ela é impressa por meio das marcas da diferença. Em meio à perspectiva do respeito à diversidade, tendemos a naturalizar as diferenças que constituem as identidades, esbarrando na percepção de superioridade de um grupo em relação aos demais

 

A reprodução da intolerância religiosa nos discursos infantis

 

As análises tecidas no presente artigo são fruto da dissertação A construção do currículo a partir das culturas que emergem das classes populares: Uma proposta de estudos que teve como objetivo investigar se e como o currículo oficial dialoga com as trajetórias socioeconômicas e culturais dos alunos de uma dada escola pública municipal.

A pesquisa em questão apresentou-se como observacional qualitativa. A metodologia empregada apoiou-se nas contribuições da pesquisa participante. Para a realização do trabalho de campo, nos utilizamos de rodas de conversa com alunos do 5º ano de escolaridade de uma escola pública localizada na Baixada Fluminense. Para preservar a identidade das crianças, todos os nomes foram substituídos por identificações fictícias.

Por meio do diálogo sobre suas experiências extramuros escolares, os alunos apresentaram algumas das opções frequentadas em família, em um quantitativo significativo remete-se à igreja. Diante da dificuldade em identificar as denominações as quais fazem parte, uma das crianças ensaia uma resposta: A tia fala que se é pastor é da evangélica, se tem padre, é da católica. (Taís)

Com o objetivo de identificar como se dá a atuação das crianças nesse espaço religioso, bem como sua frequência seguimos com perguntas outras, as quais as crianças fizeram o seguinte relato: Participo das atividades, das apresentações, das saídas. Às vezes a gente vai na chácara, às vezes a gente vai pra pizzaria, só as crianças. (Júlia). Eu toco pandeiro. (Marcos) Eu aprendi a tocar violão. (Ágatha)

A conversa é intencionalmente dirigida para as questões de ordem religiosa. E alguém participa de outra atividade religiosa sem ser igreja? Um silêncio se instaura em meio ao grupo de crianças e há a percepção de que talvez essas desconheçam outras possibilidades de manifestações da fé, para além das experiências cristãs em igrejas. Por exemplo... alguém é do candomblé? Mais uma vez percebemos instaurado um silêncio entre os alunos. Entreolhares são percebidos e a provocação entorno da temática candomblé prontamente é substituída por percepções em relação às igrejas, templo mais conhecido pelos alunos e em seguida retomada de uma forma que talvez os alunos compreendam mais facilmente: Alguém frequenta terreiro? As perguntas são intercaladas pelo silêncio dos alunos. Alguém da família de vocês frequenta? Uma das alunas responde: A minha avó é. Dessa vez o silêncio dá espaço a vozes paralelas, murmúrios, risos, acusações.

Questionados sobre os risos, os alunos responderam que achavam engraçado. Uma a uma, as crianças vão trazendo relatos de familiares, mesmo em meio aos risos e suposições dos colegas: Meu primo é macumbeiro. (Luís) Minha bisavó era... (Renata)

Diante da palavra macumbeiro, as crianças vão atribuindo sentidos diversos e retomam a polarização tão praticada pelos adultos. Prontamente estabelecem relação entre as pessoas que frequentam o terreiro e as pessoas que frequentam a igreja: Tem um cara na minha rua, ele é macumbeiro, só que é legal! (Luana) Preocupados com a colocação da aluna só que, seguimos os questionamentos: E na igreja tem gente que é (legal) e tem gente que não é? Na igreja todo mundo é legal? Ao que a aluna responde: Na igreja, tia, todo mundo é legal.

        A conversa parece ter um fim delineado pelo silêncio na sala de aula. Em análise às considerações das crianças, percebemos que as mesmas constroem seus discursos a partir da fala dos adultos, falas estas imbuídas de desconhecimento, preconceito e rejeição ás pessoas que não pertencem às suas denominações religiosas.  A postura dos alunos frente o que é entendido por eles como sendo o diferente nos desafia a pensar com elas um currículo pautado na diversidade presente na escola e na sociedade.

 

Conclusão

 

A relação da identidade com o outro encontra-se em contínuo processo de disputa onde a cultura do outro revela-se continuamente estranha a minha. Essa oposição a minha própria identidade nos parece um problema de caráter social e em se tratando da escola configurar-se como um subproduto da sociedade, passa também a ser um problema de cunho político-pedagógico. E por que não curricular? Esses conflitos são fruto da interação social das diferentes identidades culturais presentes no ambiente escolar que carregam consigo marcas de uma sociedade que segrega em razão das diferenças, em especial as religiosas

A identidade e a diferença não estão apenas postas de maneira independente. Elas se entrelaçam, compondo uma relação híbrida e nem de longe configuram-se como elementos neutros da cultura. O poder se manifesta, pois, onde são demarcados e produzidos os processos de diferenciação, sendo esta a questão cerne das relações presentes entre identidade e diferença. Assim, apenas o reconhecimento das diferenças vem se revelando insuficiente. Em contraposição, evidenciar a problemática do binarismo que circunda a identidade e a diferença é pauta urgente nos discursos pedagógicos sobre currículo e cultura.

Assim, como alternativa ao quadro percebido por meio dos relatos dos alunos, reafirmamos a necessidade de trazer a temática para a sala de aula de forma reflexiva e crítica, construindo com os alunos espaços para que possam ter liberdade para falar sobre suas experiências religiosas e demais aspectos da sua identidade e cultura.  

 

Referências Bibliográficas:

 

BAUMAN, Zygmunt. Bauman lança livro e diz: o desafio do presente é construir o novo-Em ‘Babel’, sociólogo polonês defende que vivemos tempos de crise mundial. [ 06 de agosto de 2016]. S/L: O Globo. Entrevista concedida a Leonardo Cazes. Disponível em http://oglobo.globo.com/cultura/livros/bauman-lanca-livro-diz-desafio-do-presente-construir-novo-19855966. Acesso em 18/fev/2017.

 

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ROCHA, Jose Geraldo da. RODRIGUES, Luana. As sagas da Intolerância Religiosa in LIMA, Jacqueline. ROBERTI, Angela. SANTOS, Edna. Pensando a História: Reflexões sobre as possibilidades de se escrever a História através de perspectivas interdisciplinares. 1ª ed. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2013.

 

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______, Boaventura de Sousa. Dilemas do nosso Tempo: Globalização, multiculturalismo e conhecimento. Disponível em http://www.boaventuradesousasantos.pt/documentos/curriculosemfronteiras.pdf

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