CONCEPÇÕES
DE RELIGIOSIDADE PRESENTES NOS DISCURSOS INFANTIS
(ISSN 2596-2949)
Doutoranda e mestre em Humanidades, Culturas e Artes (Unigranrio), especialista em Organização Curricular e Prática Docente na Educação Básica (UERJ), orientadora educacional e professora na rede municipal de Duque de Caxias/RJ.
Jurema Rosa Lopes Soares
Resumo
Considerando ser a escola um cenário de diversidades e desigualdades sociais políticas e culturais, a discussão em torno das diferenças e dos seus efeitos na relação entre os sujeitos revela-se como uma importante ferramenta no exercício de reflexão sobre as práticas de (in)tolerância tão presentes neste espaço. Historicamente, a escola tende a projetar nos alunos um modelo eminente de personalidade baseada quase sempre nos valores aceitos socialmente: a cultura do masculino, hétero, cristão, branco. Neste trabalho, buscamos analisar discursos (re)produzidos por crianças, onde identificamos marcas de alteridades em falas relacionadas a pessoas praticantes de religiões não cristãs. Tratam-se de alunos do 5º ano de escolaridade de uma dada escola pública municipal na Baixada Fluminense, cuja idade varia entre 10 e 14 anos. Em seus discursos, as crianças vão elucidando forte reprodução dos modelos comportamentais adotados pela sociedade. As falas imbuídas de preconceito às pessoas de religiões afro-brasileiras nos colocam o desafio de pensar um currículo estruturado no reconhecimento e valorização das diferenças não apenas de caráter religioso, como também de cor e gênero. Assim, pontuamos a necessidade de ampliarmos o debate sobre as diferentes formas de discriminação que regem as relações dentro da escola, afetando em especial àqueles e àquelas cujas marcas identitárias vinculadas à religiosidade, em certa medida, distanciam-se de padrões culturalmente aceitos.
Introdução
De acordo com a Declaração Sobre a Eliminação de Todas as Formas de
Intolerância e Discriminação Fundadas na Religião ou nas Convicções o conceito
de intolerância refere-se a:
Intolerância e discriminação baseadas na religião
ou nas convicções é considerada toda a distinção, exclusão, restrição ou
preferência fundada na religião ou nas convicções e cujo fim ou efeito seja a
abolição ou o fim do reconhecimento, o gozo e o exercício em igualdade dos
direitos humanos e das liberdades fundamentais. (Declaração Sobre a Eliminação
de Todas as Formas de Intolerância e Discriminação Fundadas na Religião ou nas
Convicções, 1981)
Muito
embora ao longo do texto apresentemos uma crítica aos conceitos empregados ao
termo tolerar, o presente artigo
debruça-se a analisar práticas discursivas permeadas por aspectos de
discriminação e intolerância (re)produzidas por crianças ainda em idade
escolar. A escola, por estar inserida em um meio social ditado pelas diferentes
formas de preconceito, compõe também um cenário onde falas depreciativas em
relação ao outro são, não apenas,
ampliadas como potencializadas pelos sujeitos que a constituem.
Dadas as múltiplas formas
de discriminação observadas às minorias sociais, apresentamos como recorte o
(des)valor atribuído às pessoas cuja fé e religiosidade pautam-se na prática do
candomblé. Em análise aos discursos infantis, observamos que para além da
atribuição negativa dada às pessoas pertencentes às religiões de matrizes
africanas há forte inclinação à comparação com religiosos de outras
fundamentações, em especial a cristã.
De acordo com dados
apresentados pelo censo de 2010, o número de pessoas que se declaram como
seguidoras do candomblé, umbanda e outras religiões de origem afro-brasileira
corresponde a 0,31% da população brasileira, uma inclinação de quase 0,1% se
comparado ao censo do ano de 1991. Ataques frequentes a centros espíritas
recentemente divulgados na mídia nos ajudam a compreender parte dessas
estatísticas ou pelo menos justificam a não declaração de muitos seguidores. Em
contrapartida, os seguidores de religiões de fundamentação cristã seguem
alcançando as maiores estatísticas do IBGE, com um crescimento da população que
se autodeclara como sendo evangélica.
Uma leitura mais apurada
dos dados apresentados somada à análise das declarações que sustentam os
discursos dos alunos no que se refere à religião do outro nos permite pensar na urgência de um currículo alinhado ao
respeito às diferenças de cunho religioso, de gênero, de raça e tantas outras
marcas que imprimem a constituição da identidade. Em campo, os relatos revelam
ainda que, muito embora as crianças ainda não tenham consolidado uma concepção
precisa a respeito do que se trata uma denominação, já manifestam forte
reprodução da intolerância às denominações que não se articulam às suas.
Para essa reflexão, nos
debruçamos sobre os conceitos de identidade, diferença, diversidade,
normalidade e tolerância trazidos por Canen & Canen, Hall, Silva e Cardoso.
No campo da educação, não
é suficiente apenas o reconhecimento e respeito as diferenças, mas pensar e
discutir como tais diferenças foram socialmente construídas, quase sempre
resultando em desigualdade e discriminação. Consideramos, por fim, que a
religião proferida por cada pessoa é parte inerente de sua identidade
traduzindo-se como expressão da sua concepção de vida e cultura. Muito embora,
a escola configure-se como uma instituição laica, em tempos de violação dos
direitos da pessoa humana, é preciso trazer o debate para a sala com vistas ao
combate das formas de discriminação, priorizando o respeito à diversidade.
1.
Identidade
e diferença, algumas considerações
Pensar em uma pedagogia
que atenda à diversidade cultural presente na escola pública brasileira requer
que tenhamos em pauta um aprofundamento teórico em torno de como as identidades
e diferenças são construídas.
Para conceituar a
identidade, Canen & Canen apresentam três dimensões:
A identidade individual é compreendida como aquela constituída da pluralidade de marcadores que perfazem a constituição dos sujeitos, eles próprios híbridos e plurais. A identidade coletiva refere-se a algum marco da identidade percebido como central na construção de sua história de vida e das relações desiguais e preconceituosas que a atingem. (...)Por outro lado, denominamos identidade institucional o conjunto de marcadores que caracterizam um ambiente institucional, no marco das tensões entre as identidades individuais plurais, as identidades coletivas e um projeto de instituição que se deve construir. (CANEN & CANEN, 2005, p. 43)
Para uma melhor
compreensão da dimensão individual, Canen & Canen relacionam a identidade
aos diversos marcadores inerentes à constituição da própria pluralidade do
sujeito. Tratam-se de marcadores de gênero, cor, religião, classe
socioeconômica e outros, que juntos compõem uma rede resultando na identidade
individual.
Um olhar sobre o conceito
de identidade coletiva nos permite empreender que ela se dá por meio do
encontro de diferentes pessoas em razão de uma dada característica individual.
A exemplo, os grupos que se organizam em razão das questões de caráter
religioso.
Ainda na busca por
embasamentos teóricos que sustentem o conceito e a discussão sobre a identidade,
recorremos a Hall, que apresenta três perspectivas diferentes:
O sujeito do Iluminismo estava
baseado numa concepção de pessoa humana como um indivíduo totalmente centrado,
unificado, dotado das capacidades de razão, de consciência e de ação, cujo centro consistia num núcleo interior que
emergia pela primeira vez quando o sujeito nascia e com ele se desenvolvia
ainda que permanecendo essencialmente o mesmo- contínuo ou idêntico a ele. (...) pode se ver que essa era uma concepção muito individualista. De acordo com a
concepção sociológica, a identidade é formada na interação entre o eu e a sociedade. (...) O sujeito pós-moderno é
conceptualizado como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente. A
identidade torna-se uma celebração móvel:
formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos
representados ou interpelado nos sistemas que nos rodeiam. (HALL, 2006,
p.11-13)
Se
na conceituação do sujeito do Iluminismo é possível a compreensão que a
identidade era a essência do eu, na perspectiva sociológica, o eu-real é formado e modificado num diálogo
contínuo com os mundos culturais exteriores e as identidades que esses mundos
oferecem. (HALL, 2006) As transições da percepção da identidade são
interpretadas pelo autor como constantes oscilações do tempo moderno. O
deslocamento de um, implica no câmbio da outra. A exemplo, Hall atribui ao
fenômeno da globalização à contínua mutação dos conceitos de identidade, bem
como sua pluralização e até os entrelaçamentos identitários.
No esforço de compreender
o conceito de identidade, buscamos, pelas lentes de Silva, um importante
estudioso do campo do currículo, ampliar tal percepção partindo de uma análise
sobre o que ela não é:
Primeiramente, a identidade não é
uma essência; não é um dado, não é um fato-seja da natureza, seja da cultura. A
identidade não é fixa, estável, coerente, unificada, permanente. A identidade
tampouco é homogênea, definitiva, acabada, idêntica, transcendental. Por outro
lado, podemos dizer que a identidade é uma construção, um efeito, um processo
de produção, uma relação, um ato performativo. A identidade é instável,
contraditória, fragmentada, inconsistente, inacabada. (SILVA, 2014, p. 96)
As teorias sobre o
currículo dentro de uma perspectiva pós-críticas vêm caminhando para a
construção de um discurso favorável ao respeito às culturas, bem como
objetivando a promoção do diálogo entre as diferenças. A partir das análises de
Silva, é importante não perdermos de vista a superficialização presente no
tratamento dado à discussão em torno da identidade e diferença. O
reconhecimento da temática e sua elucidação não é suficiente para dar tônica a
toda sua complexidade. É essencial que se procure questionar e pesquisar a
fundo como tais diferenças são socialmente produzidas e mantidas nos discursos
atuais, inclusive nos espaços de formação, sendo amplamente ecoados por
crianças e adolescentes.
Se por um lado a diferença
é entendida como resultado de diversificadas identidades, Silva nos propõe
pensar a construção da identidade a partir das diferenças e por meio de uma
relação de dependência mútua, sendo, pois, indissociáveis. Dentro dessa
perspectiva, a diferença não é um subproduto da identidade. Não se trata de um
resultado, mas de um processo capaz de delinear as identidades e reproduzir
diferenças outras. Mais que um processo, a diferença é, em certo sentido, um processo de produção simbólica e discursiva (SILVA.
2014. P. 81) capaz de manter as relações de poder em proporções
assiméticas. Trata-se, pois de relações
sociais hierárquicas, quase sempre pautadas em disputas de poder e confrontos
resultantes da imposição de aspectos da identidade de um ou mais grupos a
grupos historicamente subalternizados. Encontram-se enviesados nessas relações,
aspectos outros, tais como inclusão/exclusão, identidade/alteridade e eu/outro
que evidenciam uma sociedade pautada nas oposições binárias. Um mundo
polarizado.
A perspectiva criticada
por Silva constrói-se sobre a ideia de que a identidade se autossustenta,
fazendo, pois, alusão a si própria. Ela se constrói em oposição à outras
identidades, partindo dos aspectos que a distingue das demais. Nesse ínterim, o
eu é posto como referência em relação
ao outro, indicando a posição do
sujeito que fala, atua e que se impõe aos demais. Tais condutas reafirmam a
divisão do mundo em polos. E por divisão, não nos referimos às práticas de
partilha tão necessárias à vida em sociedade, mas à separação e categorização
de povos em grupos cada vez mais rivais, cujas mediações são pautadas em
lógicas binárias: Ou se é isso ou se é aquilo. Cumpre destacar a supremacia
confirmada de alguns grupos em relação a outros.
A
problemática o outro e eu pode ser
lida também nos conflitos instaurados em diferentes sociedades, em diferentes
tempos cerceando uma cultura em razão de outra. E assim, as relações sociais
vão sendo inscritas por meio das diferenças naturais e das que são
(re)produzidas.
2. A lógica do tolerare
As práticas que se apoiam
na construção de um currículo que pregue o respeito e a tolerância às múltiplas
identidades incorrem no equívoco de tratar a questão da identidade e diferença
de forma superficial, não alcançando o cerne da discussão que é um
aprofundamento sobre como tais elementos da cultura são produzidos socialmente.
Muito embora os discursos a favor da tolerância e respeito exalem um ar de
favorecimento ao diálogo entre as culturas na sociedade e no ambiente escolar,
como discutido por Silva, tais propostas caminham, em certo sentido, para a
banalização da ideia de que as diferenças são fabricadas e, portanto,
sustentam-se a partir das relações de poder:
Pedagogicamente as crianças e os
jovens, nas escolas, seriam estimulados a entrar em contato, sob as mais
variadas formas com as mais diversas expressões culturais dos diferentes grupos
culturais. Para essa perspectiva a diversidade cultural é boa e expressa, sob a
superfície, nossa natureza humana comum. O problema central, aqui, é que esta
abordagem simplesmente deixa de questionar as relações de poder e os processos
de diferença. Em geral, o resultado é a produção de novas dicotomias, como a do
dominante tolerante e do dominado tolerado ou a da identidade hegemônica mas
benevolente e da identidade subalterna mas “respeitada”. (SILVA, 2014, p.73)
Nesse contexto, tratar
pedagogicamente as culturas religiosas no âmbito da tolerância, consiste em
marcar a identidade por meio das diferenças, não de forma positiva, mas pautada
na construção simbólica de superioridade, ainda que de forma subjetiva e
subliminar.
A palavra tolerar vem do latim tolerare. De acordo com o dicionário
Michaellis, o termo significa levar com paciência, suportar com
indulgência. Condescender com; dissimular certas coisas, sem, no entanto, as
consentir expressamente, uma vez que não sejam lícitas. Ainda
em observação aos significados atribuídos, podemos identificar que tolerar
refere-se a permitir o livre exercício de (crenças
ou cultos religiosos). Admitir, dar tácito consentimento. Assimilar, digerir, suportar;
Com alguma frequência os
veículos midiáticos vêm apresentando, por meio de algumas publicidades em prol
das pessoas com deficiência, campanhas que se utilizam do termo em questão para
sensibilizar a sociedade a desenvolver olhares outros em torno da pessoa com
necessidade especial. Ao que parece, tais campanhas são de iniciativa do
governo e de organizações não governamentais que lidam com pessoas especiais e
enfrentam cotidianamente não apenas as limitações provocadas pelas mais
variadas síndromes como esbarram nos limites inerentes à própria sociedade que
é enxergar a pessoa para além de sua necessidade específica.
Outros termos também são
utilizados com o objetivo de adequarmos nossos olhares e comportamentos em
razão da deficiência, como a palavra normal/normalidade, atribuindo ao que se convencionou
socialmente como diferente o aspecto de normal.
Diante do exposto, nos
questionamos o que é ser normal, qual o conceito social de normalidade? Quem e
como são intitulados os normais dentro da sociedade? Porque é importante essa
busca pela normalização? Porque encaixar as diferenças dentro de um dado padrão
de normalidade? Para elucidar tais questões, nos apoiaremos nas contribuições
de Foucault. Dada a amplitude do corpo teórico elaborado pelo mesmo, nos
ateremos às construções referentes às relações de poder presentes no processo
normalizador e normatizador. Para o início dessa abordagem, apresentamos a
seguinte observação do autor:
O poder é essencialmente
repressivo. O poder é o que reprime a natureza, os indivíduos, os instintos,
uma classe. (...) Ser órgão de repressão é no vocabulário atual o qualitativo
quase onírico do poder. Não será, então, que a análise do poder deveria ser
essencialmente uma análise dos mecanismos de repressão? (FOUCAULT, 2007, p. 175)
Embora tenhamos nos
remetido ao exemplo do tratamento dado à pessoa especial, entendemos que o
âmago da questão pauta-se sobre o olhar em torno daquele que não se assemelha a
um dado padrão. De igual maneira, tal como nos foi apresentado pelas
estatísticas, as pessoas que seguem religiões de origem afro-brasileira são não
apenas em menor número se comparado às demais religiões, como socialmente são
vistas como minorias sociais e tratadas também com menor prestígio frente à
população.
Ainda segundo Foucault,
os sujeitos são constituídos a partir das múltiplas modalidades de subjetivação,
contudo suas manifestações são regidas por variadas formas de controle. Neste sentido, cada um faz não o que quer,
mas aquilo que pode; aquilo que lhe cabe na posição de sujeito que ele ocupa
numa determinada sociedade, submetido aos ditames de instituições sociais e
políticas. (SILVA, 2008). Também isso representa forte manifestação de
poder, conduzindo a temática a níveis outros: Quem nos autoriza ao exercício do
poder?
Em Vigiar e Punir, o autor faz menção a elementos utilizados pela/na
escola com vistas a disciplinarização dos corpos, tal como os exames e
punições. Tratam-se de mecanismos de normatização, tendo como finalidade a
normalidade dos sujeitos. Assim, normal era/é considerado todo aquele que
apresenta conduta compatível com os padrões estabelecidos pelas normas. Em
contrapartida, aquele que desvia-se das regras entra na categoria de anormal:
Em certo sentido, o poder de
regulamentação obriga a homogeneidade; mas individualiza, permitindo medir os
desvios, determinar os níveis, fixar as especialidades, e tornar úteis as
diferenças, ajustando umas às outras. Compreende-se que o poder da norma
funcione facilmente dentro de um sistema de igualdade formal, pois dentro de
uma homogeneidade que é a regra, ele introduz, como imperativo e resultado de
uma medida, toda gradação das diferenças individuais. (FOUCAULT, 2007, 154)
A partir dos apontamentos
citados, podemos observar que a regulamentação e demais dispositivos de
regulação trabalham a favor da normatização, consequemente, da normalização.
Vislumbrar o normal implica em homogeneidade, igualdade em oposição à
pluralidade, diversidade, multiplicidade. Assim, os conceitos de normal/anormal
são atribuídos aos sujeitos na medida em que estes se adequam aos processos de
padronização ou não.
O termo tolerar vem sendo aplicado continuamente
na reivindicação da igualdade de direitos pelos mais variados grupos
minoritários, muito embora nem sempre sejam em minoria numérica, mas simbólica.
Tratar as relações sociais no âmbito da tolerância, partindo da ideia do suportar, aguentar, ratifica a
supremacia dos grupos não minoritários em relação às minorias sociais,
dando-lhes a alternativa de respeitar ou não a sua identidade, mantendo-os na
posição de superioridade dentro de uma hierarquia social.
O conceito atribuído ao
sentido de tolerância, tal como apresentamos, precisa desvincular-se da ideia
de aguentar as diferenças, caminhando para a superação das desigualdades que
são construídas em relação às mais diversificadas identidades, tal como
disserta Bauman:
A tolerância e o respeito às
diferenças e a democracia são dois lados da mesma moeda, e seus destinos são
inseparáveis. A crise de um é, simultaneamente, a crise do outro. Democracia
sem tolerância e respeito pelo Outro é um oximoro, enquanto democracia com
tolerância e respeito à diferença é um pleonasmo. (BAUMAN, 2016)
As relações precisam se contrapor ao conceito
de soberania simbólica de uns sobre os outros. Reivindicar a tolerância implica
em reafirmar as relações de poder e negar a emergência de se estabelecer
relações cada vez mais horizontais.
Por detrás de uma suposta
cultura da tolerância estão embutidos valores ligados à caridade, à
benevolência do maior em relação ao menor. A construção histórica do conceito
de tolerância parte especificamente do ponto de vista do opressor em relação ao
oprimido, permeado por estruturas de tensão existentes entre identidade e
diferença. A esse respeito, Cardoso, aponta-nos alguns esclarecimentos
necessários à análise:
Os sentidos de tolerância, predominantes nos
dicionários das línguas latinas, revelam a ideologia da cultura europeia em seu
projeto de universalidade e homogeneidade pela dominação das outras culturas.
No século XVI, o vocábulo latino tollerantia
significa constância em suportar,
permitir, condescender. Nessa
acepção, a tolerância supõe uma relação humana entre desiguais, em que o
superior faz concessões ao inferior. Assim, o verbo ‘tolerar’ aparece frequentemente como sinônimo de ‘suportar’ ou ‘aceitar com indulgência’. Nesses dois sentidos básicos estão
presentes a postura discriminatória e superior dos conquistadores e
colonizadores europeus em relação aos povos indígenas da América Latina. Tolerar
como ‘suportar’, ‘aguentar’ nos remete ao
sentido dado na medicina. O doente suporta
(aceita) um tratamento indesejado, quando necessário. Aceita passar por uma
situação desagradável e incômoda como único meio para atingir um bem maior. Daí
a expressão: “suporta-se quando não há outro remédio”. Foi assim que os
europeus viam a necessidade de tolerar
os povos conquistados. A tolerância do conquistador (quando havia) em relação
ao que era distinto e alheio à sua própria identidade, não expressava o
reconhecimento da alteridade. Era vista como uma atitude necessária de suportar a presença do outro para
preservar a ordem universal, pois com isso o civilizado estaria impedindo o
comportamento violento natural dos povos indígenas. (CARDOSO, S/D, p. 4)
Não se trata, pois de um
discurso que favoreça à diversidade, mas sim de uma terminologia que tem suas
raízes históricas plantadas na aversão à cultura do não civilizado, do
diferente, do menor. Contrapondo-se a este conceito, Cardoso remete-nos a uma
outra concepção comprometida com a diversidade cultural dos grupos
historicamente explorados e marginalizados, não mais em nome de uma cultura da
dominação, mas em nome de uma cultura mais humanizadora. Pensando em um novo
tratamento ao conceito, sugere a seguinte definição ao vocábulo:
Tolerância, s. f. Atitude de reconhecimento, na teoria e na prática, do outro
como outro e de respeito mútuo às diferenças; - capacidade de diálogo, de
compreensão e de respeito mútuo entre posições tolerantes com ideias e valores
diferentes; - respeito aos direitos universais inalienáveis da pessoa humana; -
reconhecimento da diversidade cultural, contrapondo-se à hegemonia de uma
cultura que domina e marginaliza as outras; - resistência a tudo aquilo que
provoca opressões e desigualdades sociais; - ação solidária na superação das
desigualdades sociais; - valorização da diversidade cultural a partir da
consciência clara do valor da própria identidade e de seus limites; -
capacidade de cooperação para alcançar objetivos comuns; - atitude de
solidariedade entre indivíduos, grupos, povos, nações e, também, dos seres
humanos para com a natureza em geral. (CARDOSO,
S/D, p. 11-12)
Retomando a discussão
inicial, a identidade não consiste em uma versão contrária à diferença, a
identidade apoia-se na diferença, ela é impressa por meio das marcas da
diferença. Em meio à perspectiva do respeito à diversidade, tendemos a
naturalizar as diferenças que constituem as identidades, esbarrando na
percepção de superioridade de um grupo em relação aos demais
A
reprodução da intolerância religiosa nos discursos infantis
As análises tecidas no
presente artigo são fruto da dissertação A
construção do currículo a partir das culturas que emergem das classes
populares: Uma proposta de estudos que teve como objetivo investigar se e como
o currículo oficial dialoga com as trajetórias socioeconômicas e culturais dos
alunos de uma dada escola pública municipal.
A pesquisa em questão apresentou-se como
observacional qualitativa. A metodologia empregada apoiou-se nas contribuições
da pesquisa participante. Para a realização do trabalho de campo, nos
utilizamos de rodas de conversa com alunos do 5º ano de escolaridade de uma escola
pública localizada na Baixada Fluminense. Para preservar a identidade das
crianças, todos os nomes foram substituídos por identificações fictícias.
Por meio do diálogo sobre
suas experiências extramuros escolares, os alunos apresentaram algumas das
opções frequentadas em família, em um quantitativo significativo remete-se à
igreja. Diante da dificuldade em identificar as denominações as quais fazem
parte, uma das crianças ensaia uma resposta: A tia fala que se é pastor é da evangélica, se tem padre, é da
católica. (Taís)
Com o objetivo de
identificar como se dá a atuação das crianças nesse espaço religioso, bem como
sua frequência seguimos com perguntas outras, as quais as crianças fizeram o
seguinte relato: Participo das
atividades, das apresentações, das saídas. Às vezes a gente vai na chácara, às vezes a gente vai pra pizzaria, só
as crianças. (Júlia). Eu toco
pandeiro. (Marcos) Eu aprendi a tocar violão. (Ágatha)
A conversa é
intencionalmente dirigida para as questões de ordem religiosa. E alguém participa de outra atividade
religiosa sem ser igreja? Um silêncio se instaura em meio ao grupo de
crianças e há a percepção de que talvez essas desconheçam outras possibilidades
de manifestações da fé, para além das experiências cristãs em igrejas. Por exemplo... alguém é do candomblé?
Mais uma vez percebemos instaurado um silêncio entre os alunos. Entreolhares
são percebidos e a provocação entorno da temática candomblé prontamente é substituída por percepções em relação às
igrejas, templo mais conhecido pelos alunos e em seguida retomada de uma forma
que talvez os alunos compreendam mais facilmente: Alguém frequenta terreiro? As perguntas são intercaladas pelo
silêncio dos alunos. Alguém da família de
vocês frequenta? Uma das alunas responde: A minha avó é. Dessa vez o silêncio dá espaço a vozes paralelas,
murmúrios, risos, acusações.
Questionados sobre os
risos, os alunos responderam que achavam engraçado. Uma a uma, as crianças vão
trazendo relatos de familiares, mesmo em meio aos risos e suposições dos
colegas: Meu primo é macumbeiro. (Luís)
Minha bisavó era... (Renata)
Diante da palavra macumbeiro, as crianças vão atribuindo
sentidos diversos e retomam a polarização tão praticada pelos adultos.
Prontamente estabelecem relação entre as pessoas que frequentam o terreiro e as
pessoas que frequentam a igreja: Tem um
cara na minha rua, ele é macumbeiro, só que é legal! (Luana) Preocupados
com a colocação da aluna só que,
seguimos os questionamentos: E na igreja
tem gente que é (legal) e tem gente que não é? Na igreja todo mundo é legal? Ao que a aluna responde: Na igreja, tia, todo mundo é legal.
A
conversa parece ter um fim delineado pelo silêncio na sala de aula. Em análise
às considerações das crianças, percebemos que as mesmas constroem seus
discursos a partir da fala dos adultos, falas estas imbuídas de
desconhecimento, preconceito e rejeição ás pessoas que não pertencem às suas
denominações religiosas. A postura dos
alunos frente o que é entendido por eles como sendo o diferente nos desafia a pensar com elas um currículo pautado na
diversidade presente na escola e na sociedade.
Conclusão
A relação da identidade
com o outro encontra-se em contínuo processo de disputa onde a cultura do outro revela-se continuamente estranha a
minha. Essa oposição a minha própria identidade nos parece um problema de
caráter social e em se tratando da escola configurar-se como um subproduto da
sociedade, passa também a ser um problema de cunho político-pedagógico. E por
que não curricular? Esses conflitos são fruto da interação social das
diferentes identidades culturais presentes no ambiente escolar que carregam
consigo marcas de uma sociedade que segrega em razão das diferenças, em
especial as religiosas
A identidade e a
diferença não estão apenas postas de maneira independente. Elas se entrelaçam,
compondo uma relação híbrida e nem de longe configuram-se como elementos
neutros da cultura. O poder se manifesta, pois, onde são demarcados e
produzidos os processos de diferenciação, sendo esta a questão cerne das
relações presentes entre identidade e diferença. Assim, apenas o reconhecimento
das diferenças vem se revelando insuficiente. Em contraposição, evidenciar a
problemática do binarismo que circunda a identidade e a diferença é pauta
urgente nos discursos pedagógicos sobre currículo e cultura.
Assim, como alternativa ao quadro percebido por meio dos relatos dos alunos, reafirmamos a necessidade de trazer a temática para a sala de aula de forma reflexiva e crítica, construindo com os alunos espaços para que possam ter liberdade para falar sobre suas experiências religiosas e demais aspectos da sua identidade e cultura.
Referências
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