http://www.filologia.org.br/linguagememrevista/24/_completo.pdf
Doutoranda e mestre em Humanidades, Culturas e Artes (Unigranrio), especialista em Organização Curricular e Prática Docente na Educação Básica (UERJ), orientadora educacional e professora na rede municipal de Duque de Caxias/RJ.
Vera Lucia Teixeira Kauss
Possui graduação em Letras pela Fundação Técnico Educacional Souza Marques Faculdade de Filosofia Ciências e Letras (1979), graduação em Licenciatura Plena e Habilitação em Língua Portuguesa e Literaturas Brasileira e Portuguesa; mestrado em Letras (Ciência da Literatura) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1996) e doutorado em Letras (Ciência da Literatura) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2002).
RESUMO
O
referido artigo busca analisar a representação da mulher, bem como a construção
do seu papel social no ideário presente na música popular brasileira. Considerando
que o conceito de gênero se refere a uma construção social distinta da ideia de
sexo, nos apoiaremos nas contribuições de Raquel Soihet e Joan Wallach Scott para
elucidar tal conceito. As assimetrias presentes na relação entre feminino e masculino,
bem como os processos de subalternização do primeiro sobre o “segundo sexo” (BEAUVOIR,
1970) justificam a necessidade de maiores reflexões em torno dos discursos (re)produzidos
socialmente. Assim, teceremos algumas considerações a partir da análise das letras
das músicas “Emília”, “Ai, que saudade da Amélia” e “Folhetim” e “Desconstruindo
a Amélia”. Para a análise dos discursos, recorremos às proposições de Michel Foucault.
A pesquisa apresenta características do tipo documental com abordagem qualitativa.
Palavras-chave:
Discursos sociais. Gênero. Música.
1. Introdução
Desde as escrituras
sagradas à mitologia grega a mulher é responsabilizada pelo mal da humanidade. Eva
e Pandora carregam consigo o estigma de quem disseminaria instintivamente a imprudência,
conduzindo o mundo a padecer por seus atos. Eva levaria Adão à perdição por meio
da desobediência, induzindo-o a comer do fruto proibido. Um preço alto pagaria cada
menina simplesmente por nascer mulher. A insensatez de Eva nos tornaria merecedoras
de toda má sorte, da privação do prazer à dor do parto:
E viu a mulher que aquela árvore era boa para se comer, e agradável
aos olhos, e árvore desejável para dar entendimento; tomou do seu fruto, e comeu,
e deu também a seu marido, e ele comeu com ela. (...) À mulher, Ele (Deus) declarou:
Multiplicarei grandemente o seu sofrimento na gravidez; com sofrimento você dará
à luz filhos. Seu desejo será para o seu marido, e ele a dominará. (GÊNESIS, 3:6-14)
A subalternização
da mulher em relação ao homem vem sendo alvo de contínuas reflexões e estudos. Embora
as legislações vigentes apresentem avanços quanto ao direito feminino, nas relações
cotidianas ainda encontramos vestígios de uma sociedade patriarcal, cuja história
fundamenta-se em relações de opressão e machismo. Assim, o referido artigo se inicia
com alguns fragmentos da construção histórica e social sobre o conceito de gênero,
buscando evidenciar a hierarquia de gênero a favor do masculino, colocando o ser
feminino em posição de inferioridade. Posteriormente, nos reportamos ao feminismo
como um movimento social e político que reivindica a igualdade de direitos entre
homens e mulheres, subvertendo, assim, a lógica de dominação entre os sexos.
Embora o texto
se reporte à condição de subalternidade da mulher é importante e urgente evidenciar
os movimentos de superação à essa condição de inferioridade que lhe foi posta, tal
como nos afirma Lia Faria:
Hoje,
algumas mulheres do nosso país buscam conhecer, por diferentes caminhos, o processo
de sua alienação e tudo aquilo que contribuiu para sua passividade, a fim de melhor
entendê-las, superá-las e poder construir suas próprias vozes, numa pluralidade
de sentidos que contemple de fato as diversas subjetividades femininas, negando,
assim, um único modelo de modo de ser feminino. (FARIA, 1997, p. 12-13)
É nesse contexto
que o presente trabalho se encontra inserido. Buscaremos tecer algumas considerações
em torno dos discursos observados sobre gênero na música popular brasileira que
imprimem à mulher posição de subalternidade em relação ao homem. Entretanto, no
presente estudo, ainda pelo viés da música, objetivamos elucidar letras que empregam
outras perspectivas de leitura sobre a identidade feminina e sua sexualidade, desconstruindo
a mulher pensada pelo olhar machista e patriarcal.
2. Representação social da mulher
A hierarquia
de gênero, tal como as demais hierarquias impostas a uma sociedade dual (branco/negro,
ocidental/oriental, outros) vem historicamente se revelando como cruel e opressora.
Para o entendimento do conceito de gênero é preciso compreendê-lo como uma construção
social, elevando a reflexão para além da percepção do sexo anatômico. Ser homem
e mulher é um reflexo de uma realidade social e não apenas biológica. De igual maneira,
o exercício da soberania do homem em relação à mulher é uma construção cultural
e, portanto, passível de sofrer mutações.
A palavra
gênero refere-se à construção social do
conceito de feminino e masculino. Embora o vocabulário seja aqui utilizado para
expressar as hierarquias historicamente presentes entre o ser homem e o ser mulher,
apenas na década de 70 tal termo foi utilizado com esse fim. Como precursora de
tais reflexões, em 1949, por meio da escrita de O Segundo Sexo Simone Beauvoir trouxe à tona a ideia do ser social e
não apenas do ser biológico. De acordo com Raquel Soihet, o gênero destaca a questão
relacional entre o feminino e o masculino:
Gênero
tem sido desde a década de 70, o termo usado para teorizar a questão da diferença
sexual. Foi inicialmente utilizado pelas feministas americanas com vistas a acentuar
o caráter fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo. A palavra indicava
uma rejeição ao determinismo biológico implícito no uso de termos como “sexo” ou
diferença sexual. (SOIHET, 1997, p. 101)
Ainda nessa
perspectiva, Joan Wallach Scott procura analisar o conceito de gênero:
O
gênero é igualmente utilizado para designar as relações sociais entre os sexos.
O seu uso rejeita explicitamente as explicações biológicas, como aquelas que encontram
um denominador comum para várias formas de subordinação no fato de que as mulheres
têm filhos e que os homens têm uma força muscular superior. O gênero torna aliás
uma maneira de indicar as “construções sociais”: a criação inteiramente social das
ideias sobre os papeis próprios aos homens e às mulheres. É uma maneira de se referir
às origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas dos homens e das mulheres.
O gênero é, segundo essa definição uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado.
Com a proliferação dos estudos do sexo e da sexualidade, o gênero se tornou uma
palavra particularmente útil, porque oferece um meio de distinguir a prática sexual,
dos papeis atribuídos às mulheres e aos homens. (SCOTT, 1995, p. 75)
As assimetrias
de gênero, bem como as assimetrias raciais, são bem colocadas por Eduardo Galeano,
quando este, num movimento de denúncia das diferentes formas de opressão às categorias
minoritárias, denuncia enfaticamente: “Os
subordinados devem obediência eterna a seus superiores, assim como as mulheres devem
obediência aos homens. Uns nascem para mandar, outros para obedecer”. (GALEANO,
2005, p. 45)
Em diferentes
momentos da história a subserviência da mulher em relação aos diferentes segmentos
da sociedade se revelaram naturais. Esse ser tido como inferior até mesmo pela ciência
sempre esteve à mercê dos comandos e diretrizes ora do pai, enquanto provedor do
lar, posteriormente do marido, como proprietário, da sociedade, da Igreja e
também do Estado.
Em decorrência
das relações de gênero, a mulher pura e casta deixa a casa dos seus pais e passa
a servir ao seu senhor, o marido. Seu corpo passa a ser propriedade do mesmo e deve
estar pronto para atendê-lo. Na literatura facilmente nos deparamos com expectativas
acerca das atribuições da mulher: “O corpo (...) não era diferente do de qualquer
outra mulher. Era feito para ser subjugado à vontade de um homem”. (KAWABATA,
2004, p. 60)
Coventry
Kersey Dighton Patmore (1823-1893), em 1854, em referência à sua primeira esposa
Emily, escreve o poema “Anjo do lar” dando mostras do perfil ideal de mulher como
aquela que tem sua vida dedicada aos afazeres domésticos, sendo sempre agradável
a todos. Contrariando as expectativas da sociedade, Virginia Woolf, em 1931, ao
falar à Sociedade Nacional de Auxílio às Mulheres, intenta descrever o “Anjo do
lar” às novas gerações, à luz de Coventry Kersey Dighton Patmore, como um fantasma
que a perseguiu no início de sua carreira como escritora. Afirmou, inclusive que
toda mulher o carrega consigo e precisou matar o seu fantasma para seguir em seu
firme propósito de escritora:
Ela era extremamente simpática. Imensamente encantadora.
Totalmente altruísta. Excelente nas difíceis artes do convívio familiar. Sacrificava-se
todos os dias. Se o almoço era frango, ela ficava com o pé; se havia ar encanado,
era ali que ia se sentar – em suma, seu feitio era nunca ter opinião ou vontade
própria, e preferia sempre concordar com as opiniões e vontades dos outros. E acima
de tudo – nem preciso dizer – ela era pura. Sua pureza era tida como sua maior beleza
– enrubescer era seu grande encanto. (WOOLF, p. 12, 2012)
No Brasil,
em 1942, por meio de “Emília”, o compositor Wilson Batista evidencia os valores
tradicionais da família. Embora se comporte como um boêmio, por meio do samba citado,
dá deixas de um chefe de família responsável estabelecendo um modelo de mulher perfeita
que se dedique ao labor doméstico e tenha, como principal atributo, atender às demandas
do marido:
Emília
Quero uma mulher que saiba lavar e cozinhar
Que de manhã cedo me acorde na hora de trabalhar
Só existe uma
E sem ela eu não vivo em paz
Emília, Emília, Emília
Não posso mais
Eu quero uma mulher que saiba lavar e
cozinhar...
Ninguém sabe igual a ela preparar o meu
café
Não desfazendo das outras, Emília é mulher
Papai do Céu é quem sabe a falta que ela me fez
Emília, Emília, Emília
Não posso mais
(Wilson
Batista e Haroldo Lobo)
Ainda no início
da década de 40, Mario Lago e Ataulfo Alves, através do samba “Ai que saudade da
Amélia” dialogavam com Coventry Kersey Dighton Patmore, apresentando uma versão
de “Anjo do Lar” traçando, na mesma canção, um paralelo entre a mulher vaidosa e
a mulher ideal, exemplificada como “mulher de verdade”:
|
Nunca vi fazer tanta
exigência |
Às vezes passava
fome ao meu lado |
|
|
(Mario
Lago e Ataulfo Alves) |
Não é difícil
entender o pensamento da época quando analisamos os discursos presentes também nas
legislações brasileiras. As expectativas em torno da função social da mulher encontram
respaldo nas leis que dissertam sobre como deve ser a educação da mulher desde
menina.
A educação
formal com acesso à escola nem sempre foi um direito feminino. A escolarização oferecida
às mulheres, inicialmente, sofria diferenças em relação à educação recebida pelos
meninos, refletindo desde sempre as desigualdades entre os gêneros. Assim, se aos
homens era concedido o preparado para honrar a nação ou os negócios, a educação
feminina tinha outro propósito, mais especificamente resumia-se a um manual de conduta
de como se tornar o “anjo do lar”.
Quando inicialmente
afirmamos que a mulher é subserviente não apenas ao marido como também ao Estado,
o fazemos porque em toda a história ele se faz presente, legitimando a soberania
do “primeiro sexo” em relação ao “segundo”. No Brasil, as leis previam e estimulavam
a permanência da mulher no ambiente doméstico, sendo responsáveis pela conservação
da família ou pela ruína desta.
Pensando na
preservação da família, Gustavo Capanema (1900-1985) prevê um plano de educação
específico para a educação das meninas de 12 a 18 anos de idade, tendo como princípio
da grade curricular o ensino doméstico destinado às mulheres oriundas das camadas
pobres. De acordo com o projeto do Plano de Educação
de 1937 a oferta do ensino contemplaria questões
de ordem doméstica geral, preparando as meninas para a vida no lar e para a docência
desse sistema. As alunas teriam aulas de português, moral familiar, noções de civilidade,
matemática elementar, ginástica e canto. O ensino doméstico se dividiria em três
categorias: do lar, agrícola e industrial. Embora tal plano não entrasse em vigor,
muitas escolas de caráter confessional o adotou, configurando-se em verdadeiras
fábricas de donas de casa.
A total ausência
de estímulos para o trabalho remunerado da mulher é prevista na legislação. Ainda
em 1939, por meio do Decreto-lei Nº 1.764 em seu artigo
3º inciso VII, o então Presidente da República, Getúlio Vargas, estabelecia que,
ao elaborar projetos de lei pertinentes à proteção da família, a comissão deveria: “Assegurar
aos pais de família, sem prejuízo das condições de ordem geral, a preferência para
o provimento nos empregos públicos e particulares”. Mais uma vez, vemos o gênero
masculino sendo privilegiado em relação ao feminino.
Ainda sobre
a letra da música que descreve práticas de uma mulher despida de um possível culto
à aparência
Amélia não tinha a menor vaidade
Amélia é que era mulher de verdade”.
Na contramão
desse padrão valorizado por Mario Lago, Clarice Lispector, dedica-se a escrever
sobre a mulher. A escritora representa uma importante referência na literatura brasileira,
problematizando a figura da mulher ao trazer outras leituras sobre seu gênero. Ainda
sobre o discurso presente na letra de “Ai que saudade da Amélia”, analisamos que,
embora haja diferentes versões para a criação da música (1941), os autores são categóricos
ao afirmar que não se trata de um hino à submissão da mulher. Segundo Ataulfo Alves,
“Amélia é compreensão, é ternura, é vida. Ela simboliza
a companheira ideal, que luta ao lado do marido, vivendo de acordo com suas possibilidades,
sem exigir o que ele não pode dar”. Fato
é que, em 1942, a canção foi tocada nos maiores bailes cariocas, sendo premiada
como melhor samba do carnaval do ano corrente.
As práticas
discursivas presentes na referida letra, articuladas ao fato da música ter ganhado
grande notoriedade, direcionam nossa atenção aos efeitos do enunciado sobre o imaginário
das massas, corroborando para a ideia de que a mulher ideal é aquela que atende
às expectativas do marido, o importunando o mínimo possível com questões de
pouca relevância.
A prática
da análise do discurso consiste em um importante exercício do campo da linguística.
Ela nos possibilita refletir sobre as produções ideológicas impregnadas nos discursos
construídos. Daí nossa opção por tal modalidade da linguística. Entendendo a não
obviedade dos enunciados, é importante observar as práticas discursivas, construindo
uma perspectiva crítica a respeito das mesmas e não perder de vista, tal como proposto
por Michel Foucault (2012), que se referem a “(...) práticas que formam sistematicamente
os objetos de que fala (...)” e relacionam-se às questões de poder.
Por esse prisma,
ao analisarmos o início da letra podemos observar um perfil de mulher sendo construído
na sociedade e criticado pela mesma. O autor busca exaltar com ar saudosista a figura
de uma outra mulher que se satisfaz com o mínimo necessário, sendo a companheira
ideal capaz de ser solidária às dificuldades do marido. De fato, em nenhum momento
podemos identificar, de forma direta, que Amélia era subjugada ao marido, mas sua
resignação à condição submetida era evidente e incontestável, sendo inclusive exaltada
por seu homem por apresentar tal atributo.
Outra crítica
apresentada à letra de Mario Lago (1911-2002) refere-se à ditadura imposta sobre
como a mulher deve ser ou se comportar, mais especificamente em como deve ser “a
mulher de verdade”. Cumpre destacar que nem uma década separava as criações de “Amélia”
(1941) e “Emília” (1942) à liberação do voto feminino no país (1932), o que levava
a crer que o Brasil vinha se reconfigurando em relação à percepção do papel da mulher
na sociedade.
Enquanto cantávamos
“Ai que Saudade da Amélia” na década de 40, a história da mulher, em escala universal,
era marcada por três grandes momentos: Em 1945, por meio da Carta das Nações Unidas, foi estabelecida a igualdade de direitos entre homens e mulheres e em
1949, foram criados os Jogos da Primavera, ou ainda
"Olimpíadas Femininas". Neste mesmo ano, Simone Beauvoir publicava o livro O Segundo Sexo, no qual analisava a condição feminina, promovendo
reflexões sobre as desigualdades existentes entre o masculino e o feminino. Por
meio da obra, Simone
Beauvoir questiona
as relações de poder que inferiorizavam a mulher.
3. A mulher e a sexualidade
Recentemente,
no Brasil a violação do corpo, em forma de estupro ou outras formas de violência
sexual contra a mulher, passou a ser vista como crime hediondo conforme Lei nº. 12.015 de 2009. Até o ano de 1995, o violador que casasse com a sua vítima seria isento de
punição. De acordo com o exposto na Lei n º 2848 de 07 de dezembro de 1940, percebe-se nitidamente uma despreocupação com o bem-estar
físico e emocional da vítima. De acordo com o artigo 107, a punição era extinta
diante das seguintes circunstância:
VII – pelo casamento
do agente com a vítima, nos crimes contra os costumes;
VIII – pelo casamento da vítima com terceiro, nos crimes
referidos no inciso anterior, se cometidos sem violência real ou grave ameaça e
desde que a ofendida não requeira o prosseguimento do inquérito policial ou da ação
penal no prazo de 60 (sessenta) dias a contar da celebração. (BRASIL, 1940)
Não se tratava, pois de uma penalização pela agressão praticada
contra a mulher, mas sobretudo de uma tentativa de se reparar um mal que ia contra
os costumes e moral da época em que o decreto foi criado, 1940. Tal período refere-se
ao momento histórico em que a legislação e os legisladores se diziam a favor da
família, estimulando o casamento entre homens e mulheres. Cumpre ressaltar que,
no caso do estupro, a mulher não era consultada a respeito do casamento.
O direito
sobre o próprio corpo configura-se como uma das principais bandeiras do movimento
feminista, junto a outras grandes reinvindicações tal como igualdade de direitos
entre homens e mulheres. Muito embora a constituição atual já o sinalize, na prática
tais igualdades se traduzem em reais assimetrias. Daí ser tão importante problematizarmos
não apenas a questão da sexualidade feminina, mas investigarmos reflexivamente os
valores embutidos na opressão praticada sobre a mulher.
Em A Ordem do Discurso, Michel Foucault (1999)
chama-nos a atenção para a privação do direito à palavra, mais especificamente sobre
temas ainda considerados tabu, a exemplo, a sexualidade. O autor relaciona ainda
o discurso às relações de poder:
Em
uma sociedade como a nossa, conhecemos, é certo, procedimentos de exclusão. O mais evidente, o mais familiar
também, é a interdição. Sabe-se que não
se tem o direito de dizer tudo, que não se pode falar de tudo em qualquer circunstância,
que qualquer um, enfim, não pode falar de qualquer coisa. Tabu do objeto, ritual
da circunstância, direito privilegiado, ou exclusivo do sujeito que fala. (...)
Notaria apenas que, em nossos dias, as regiões onde a grade é mais cerrada, onde
os buracos negros se multiplicam, são as regiões da sexualidade e as da política.
(...) Por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições
que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e o poder. (FOUCAULT,
1999, p. 9-10)
Embora o texto
original de Michel Foucault tenha sido produzido no início da década de 1970 no
contexto da aula inaugural do Collège de France, ainda há névoas sobre o assunto,
no esforço de manter as mulheres sob rédeas masculinas. A exemplo, temas como o
aborto no Brasil e em várias partes do globo, seguem colocados a segundo plano negligenciando
o fato de milhares de mulheres se submeterem a procedimentos clandestinos expondo
suas vidas. As clínicas alternativas não apresentam métodos adequados para o procedimento
e acabam por deixar graves sequelas no corpo da mulher ou mesmo levam-na a óbito.
De acordo com os defensores da legalização, trata-se de um assunto pertinente a
políticas públicas para mulheres, uma vez que as mesmas são submetidas à locais
precários, que não oferecem condições ideais de higiene. A ausência de tais políticas
voltadas para saúde e bem-estar da mulher, somada a interesses de outra ordem, lhe
negam o direito de optar por uma laqueadura ou mesmo ter acesso a métodos contraceptivos.
Importante pensar que o aborto envolve leituras ainda mais aprofundadas a fim de
não incorrermos no erro de apresentarmos justificativas rasas e superficiais para
sua legalização.
Diferente
do que acontece no Senado, a discussão em torno da legalização do aborto tem sido
recorrente assunto nas mídias e pauta do movimento feminista. Defendido por parte
da sociedade com a justificativa de que a mulher deve ter o direito de decidir sobre
seu próprio corpo, militantes do movimento esbarram em fortes argumentos de que
tal procedimento depõe contra a vida humana.
O controle
sobre o corpo e desejo femininos é de longa data. Historicamente, a guarda da virgindade
feminina até o casamento, consistia numa das maiores ditaduras da sociedade e da
Igreja sobre o corpo da mulher. Entretanto, não é a única forma de contenção de
sua libido, uma vez que, mesmo casada, não poderia expressar prazer sob o risco
de ser considerada endemoniada. Espasmos, gemidos, uivos ou orgasmos poderiam ser
facilmente interpretados como intervenção do demo.
O prazer feminino
foi perseguido e demonizado, não competindo às mulheres de bem o direito de senti-lo.
As lésbicas são penalizadas por renegarem a principal atribuição da fêmea: a reprodução,
a procriação da espécie humana. A esse respeito, o grande marco da luta da mulher
pelo direito de decidir a hora de gerar filhos consiste na invenção da pílula anticoncepcional.
O advento da pílula decretava que as pessoas poderiam fazer uso do sexo apenas pelo
prazer e não meramente para fins reprodutivos. Embora a Igreja a condenasse, a pílula
passou a ser um divisor de águas na história da liberdade sexual das mulheres.
Entre os anos
de 1978 e 1979, Chico Buarque compõem a letra da música “Folhetim” que reflete a
imagem de uma mulher liberta de censuras em busca dos prazeres do corpo.
|
Se acaso me quiseres |
E, se tiveres renda |
|
E eu te farei as
vontades |
Mas na manhã seguinte |
|
|
(Chico
Buarque de Holanda) |
A letra fora
criada para a peça “Ópera do Malandro”, também de autoria de Chico Buarque, cuja
história fora construída a partir do tripé jogatina-contrabando-prostituição. A
música apresenta um contrato muito atraente, propondo ao homem “uma noitada boa,
um cinema, um botequim”, garantindo-lhe total ausência de compromisso “na manhã
seguinte (...) és página virada, descartada do meu folhetim”. O eu-lírico assume a postura assumida pelo “primeiro sexo”
descartando-o após a noite de prazeres.
A canção na
voz de Gal Costa ganha o apreço do grande público, tornando-se famosa também por
ser tema de teledramaturgias acessíveis à massa. Por vezes, o eu-lírico é visto
como uma mulher liberta de censuras e privações “
Sou dessas mulheres que só dizem sim” e das amarras que a sociedade impõe ao seu
corpo e ao seu sexo, uma mulher comprometida em satisfazer-se em nome de um prazer
historicamente autorizado aos homens. No trecho
E, se tiveres renda
Aceito uma prenda
Qualquer coisa assim
Como uma pedra falsa
Um sonho de valsa
Ou um corte de cetim
não observamos um pedido ou algo que
condicione o sexo a uma forma de pagamento. Se por vezes a fala do eu-lírico remete
à possibilidade de se tratar de uma prostituta, questionamo-nos por que não ser
possível referir-se apenas a uma mulher, não profissional do sexo, que se deleita
de forma descomprometida?
O objetivo
da menção à letra de “Folhetim” não consiste em definir se o eu-lírico falava de
uma prostituta ou não. Interessa-nos, nessa análise, o comportamento da mulher,
independente da possibilidade de que esta se disponha à satisfação pessoal com tamanha
destreza e liberdade a não ser que o faça enquanto “mulher da vida”.
Na contramão da histórica representação social feminina, a mulher
pensada e subjugada pelo outro, a letra da música “Descontruindo a Amélia” de autoria
de Pitty
e Martin Mendonça traça um perfil contemporâneo da mulher que consciente da sua
autonomia e potência assume a autoria dos seus próprios passos:
|
Já é tarde, tudo
está certo |
O ensejo a fez tão
prendada |
|
Disfarça e segue
em frente |
A despeito de tanto
mestrado |
|
|
(Pitty e Martin Mendonça) |
Em “Desconstruindo
a Amélia” analisamos a busca pela desnaturalização das relações de poder entre os
gêneros. Sem a licença da Zpalavra, a mulher vem anunciar ao mundo que deixa de
ser plateia para ser ator social. Nem coadjuvante, nem papel principal. Nem Amélia,
nem Emília. Nesse contexto, a música também se revelou como um importante veículo
para a manifestação de discursos outros.
O compromisso
com afazeres domésticos, tão bem descrito na letra, culturalmente faz parte da rotina
feminina. São as mulheres que em sua maioria se dedicam aos trabalhos da casa, despendendo
mais tempo do que os homens. De acordo com pesquisas realizadas pelo IPEA: “Cerca de 50%
dos homens realizam afazeres domésticos, ao passo que entre as mulheres esse percentual
fica em torno de 90%”. (BRASIL, 2012) Além de tudo, as atividades domésticas continuam
como uma prática de desprestígio, pouco valorizada pela sociedade.
A ida dos
homens para as I e II Guerras Mundiais fez com que muitas mulheres passassem a assumir
os negócios da família, movimentando, assim, a economia local. As mudanças oriundas
da Revolução Industrial e, posteriormente, a consolidação do capitalismo possibilitaram
às mulheres entrarem nas fábricas e indústrias contribuindo com sua mão de obra.
Tal mudança não necessariamente veio acompanhada de melhorias na qualidade de vida
da mulher, uma vez que as mesmas eram submetidas a péssimas condições de trabalho,
muitas horas de labor e salários mais baixos que o dos homens. Acrescenta-se a esta
situação o fato das mesmas exercerem dupla jornada: a de operária e dona do lar.
Dois dos fatores
podem ser responsabilizados pela permanência e crescimento da mulher no mercado
de trabalho. O primeiro deles, certamente, diz respeito ao advento e liberação do
uso da pílula e com ele um maior controle da fecundidade, e ainda aumento da escolarização
da mulher. Este, por sua vez, vem contribuindo para o aumento da renda das mulheres
e, consequentemente, para sua independência financeira. Muito embora as mulheres
apresentem maior escolaridade em relação aos homens, as disparidades salariais ainda
se fazem atuantes, denunciando os processos desiguais presentes nas relações de
gênero.
De acordo
com os dados levantados pelo censo demográfico realizado pelo IBGE entre os anos
2000 e 2010, foi constatado que houve um considerável aumento da escolaridade das
mulheres em relação a dos homens:
As
estatísticas evidenciam que, no ensino médio, houve aumento da frequência escolar
feminina de 9,8% em relação à masculina no período considerado. A taxa feminina
foi de 52,2%, para uma taxa masculina de 42,4%. (...) Constatou-se também um contingente
maior de mulheres entre os universitários de 18 a 24 anos no nível superior, em
2010. Elas representavam 57,1% do total de estudantes na faixa etária. Consequentemente,
o nível educacional das mulheres é maior do que o dos homens na faixa etária dos
25 anos ou mais. Outro fator importante para a elevação do nível de escolaridade
das mulheres foi a redução na proporção de adolescentes (15 a 19 anos) com filhos.
Este caiu na década, de 14,8% para 11,8%. (BRASIL, 2014)
Embora tenha
havido melhoria no nível de instrução das mulheres em relação ao dos homens, o mesmo
não pode se dizer em relação aos rendimentos. De acordo com o IBGE do ano de 2010,
o “Salário médio de admissão está 5,29% maior, mas diferença
entre homem e mulher ainda é grande. Enquanto os homens ganham R$ 1.063,20, em média,
as mulheres recebem R$ 917,03” (BRASIL, 2012).
Ao analisarmos
a cronologia do direito feminino, observamos que,
em 1951, a Organização
Internacional do Trabalho aprovou
a igualdade de remuneração entre trabalho masculino e feminino para função igual.
Mais de meio século se passou e tais disparidades ainda podem ser observadas tal
como citado na canção “A despeito de tanto mestrado/ Ganha menos que
o namorado/E não entende porque”.
Até o ano
de 1962, a mulher casada precisava do aval do marido para o exercício da função
remunerada. Conforme consta no Estatuto da Mulher Casada, Lei Nº 4.121, assinada pelo então presidente
João Goulart, a mulher passou a dispor livremente do produto do seu trabalho.
Como se vê,
a inserção da mulher no mercado de trabalho de forma legal esbarrou em muitos obstáculos.
Cumpre lembrar que as mulheres das classes pobres e oprimidas sempre trabalharam
fora. Desde o Brasil colonial, temos notícias das mulheres que trabalhavam nas casas
dos donos de engenhos, prestando-lhes serviços domésticos não remunerados, engrossando
as estatísticas da escravidão no país. Mesmo antes do amparo legal ao trabalho feminino,
muitas mulheres pobres cosiam roupas ou as lavavam em troca de alguma remuneração.
4. Considerações finais
Os discursos,
por assim dizer, são resultado do contexto político e social no qual o autor encontra-se
inserido. Sua produção, seu texto refletem os ranços/avanços da sociedade, bem como
suas mazelas. A análise dos discursos presentes nas letras de músicas revela a construção
ideológica, conforme a temporalidade nas quais foram produzidas, sobre as mulheres,
seu papel social e também sobre seu sexo e sexualidade.
Se é verdade
que o modelo de sociedade industrial e capitalista gerou novas atribuições às mulheres,
também é verdade que esse mesmo modelo de sociedade vem interferindo na construção
social da mulher por meio dos discursos impregnados nas letras de música, objeto
das nossas análises, nas legislações e literatura. A sua ascensão no mercado de
trabalho vem fazendo com que ela faça opções outras tais como casar e ter filhos
(um, ou dois) mais tarde ou mesmo não casar e não ter filhos e ainda ter filhos
sem casar.
Não abrir
mão da maternidade e do casamento também faz parte do cotidiano de muitas mulheres.
Conciliar essas múltiplas experiências como estudante, profissional, esposa, mãe,
dona de casa tem sido o grande desafio da mulher contemporânea, uma verdadeira “equilibrista”.
O
exercício da análise dos discursos realizada no presente estudo evidenciou que a
música, como um importante veículo de comunicação às grandes massas, por vezes imprimiu
à mulher um valor de subserviência ao homem. Pensando ainda na capacidade de comunicação
assumida pela música, compositores mais contemporâneos também se utilizaram dessa
importante ferramenta para elucidar características de uma mulher mais consciente
de si e senhora de suas ações.
Nesse
ínterim, consideramos que o discurso foi utilizado como instrumento de denúncia
das assimetrias de gênero e também como ferramenta de luta na busca por relações
mais simétricas entre homem e mulher. Contudo, como pontuado por Michel Foucault, “Em todo caso,
uma coisa ao menos deve ser sublinhada: a análise do discurso, assim entendida,
não desvenda a universalidade de um sentido” (FOUCAULT, 1999, p. 70). Assim, entendemos
tratar-se de considerações e interpretações sobre os discursos analisados e não
propriamente sobre suas verdades.
REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
ALTMAN. Max. Hoje
na história: começa a ser vendida a primeira pílula anticoncepcional. São
Paulo, 2013. Disponível em:
<http://operamundi.uol.com.br/conteudo/historia/28670/hoje+na+historia+1960+%96+comeca+a+ser+vendida+a+primeira+pilula+anticoncepcional+.shtml>.
Acesso em: 27-07-2015.
BEAUVOIR, Simone. O
segundo sexo: fatos e mitos. 4. ed. São Paulo: Difusão Europeia do Livro, 1970.
BELÉM. Euler de França. A História da criação da
música “Amélia” por Mario Lago e Ataulfo Alves. Jornal Opção, ed. 2075. Disponível em: <http://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/a-historia-da-criacao-da-musica-amelia-por-mario-lago-e-ataulfo-alves-33004>.
Acesso em: 26-07-2015.
BRASIL. Decreto
Lei 1.764, de 10 de novembro de 1939. Câmara Legislativa Brasileira.
Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1930-1939/decreto-lei-1764-10-novembro-1939-411509-publicacaooriginal-1-pe.html>.
Acesso em: 30-07-2015.
______. Decreto Lei nº 2848, de 07 de dezembro de
1940. Diário Oficial da República
Federativa do Brasil, Poder Legislativo, Brasília. Disponível em: <http://www.jusbrasil.com.br/topicos/10627547/artigo-107-do-decreto-lei-n-2848-de07-de-dezembro-de-1940>.
Acesso em: 30-07-2015.
______.. Decreto nº 21.076, de 24 de fevereiro de
1932. Diário
Oficial da União, ano 1932, p. 3385, fev. 1932. Disponível em: <http://www2.camara.leg.br/legin/fed/decret/1930-1939/decreto-21076-24-fevereiro-1932-507583-publicacaooriginal-1-pe.html>.
Acesso em: 26-07-2015.
______. LEI Nº
12.015, de 7 de agosto de 2009. Brasília, 7 de agosto
de 2009; 188o da
Independência e 121o da
República. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/lei/l12015.htm
Acesso em 26/07/2015>.
______. Lei nº
4.121, de 27 de agosto de 1962. Diário
Oficial da República Federativa do Brasil, de 3/9/62. Disponível em: <http://www3.dataprev.gov.br/sislex/paginas/42/1962/4121.htm>.
Acesso em: 27-07-2015.
BUARQUE. Chico. Folhetim.
Intérprete: Gal Costa in Ópera do Malandro. Rio de Janeiro: Universal, 1978.
Faixa 10. Disponível em: <http://www.vagalume.com.br/chico-buarque/folhetim.html>.
Acesso em: 31-07-2015.
DUARTE, Constânia Lima. ASSIS, Eduardo de; BEZERRA, Patrícia
da Costa. (Orgs.) Gênero e representação na
literatura brasileira. Belo Horizonte: Pós-graduação em Letras e Estudos Literários/UFMG,
2002.
GALEANO, Eduardo. De
pernas pro ar. A escola do mundo ao avesso. Porto Alegre: L&PM,2005.
FARIA, Lia. Ideologia
e utopia nos anos 60: Um olhar feminino. Rio de Janeiro: Eduerj, 1997.
FOLHETIM. In: Análise
de letras de Chico Buarque. Disponível em: <http://analisedeletras.com.br/chico-buarque/folhetim>.
Acesso em: 31-07-2015.
FOUCAULT, Michel. A
ordem do discurso. 5ª edição. São Paulo: Edições Loyola, 1999.
______. A arqueologia
do saber. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.
KAWABATA, Yasunari. A casa das belas adormecidas. São Paulo: Estação Liberdade, 2004.
LAGO, Mario; ALVES, Ataulfo. Ai que saudade da Amélia.
Intérprete: Ataulfo Alves. In: ___; ___. 90
Anos. Rio de Janeiro: Revivendo músicas, 2003. Faixa 14. Disponível em: <http://www.vagalume.com.br/mario-lago/ai-que-saudades-da-amelia.html#ixzz3h2N6Ee8m>.
Acesso em: 26-07-2015.
MARTIN. PITTY. Desconstruindo
Amélia. Intérprete: Pitty in A Trupe Delirante no Circo Voador. Rio de Janeiro: Deck Disc, 1997. Faixa
3. Disponível em: <http://www.vagalume.com.br/pitty/desconstruindo-amelia.html>.
Acesso em: 26-07-2015.
NAÇÕES Unidas. Carta
das Nações Unidas, de 26/06/1945. São Francisco. Disponível em: <http://www.gddc.pt/direitos-humanos/textos-internacionais-dh/tidhuniversais/onu-carta.html>.
Acesso em: 27-07-2015.
ORGANIZAÇÃO Internacional do Trabalho. Igualdade de remuneração de homens e
mulheres trabalhadores por trabalho de igual valor, 1951. Disponível em: <http://www.oitbrasil.org.br/node/445>.
Acesso em: 28-07-2015.
SCOTT, Joan Wallach. Gênero: Uma categoria útil de análise
histórica. Educação e realidade. Porto
Alegre, vol. 20, n. 2, p. 71-99, jul./dez. 1995.
SOIHET, Raquel. História, mulheres, gênero: Contribuições
para um debate. In: AGUIAR, Neuma (org.). Gênero
e ciências humanas: Desafio às ciências desde a perspectiva das mulheres. Rio
de Janeiro: Record Rosa dos tempos, 1997, p. 95-114.
WOOLF, Virginia. Profissões
para mulheres e outros artigos feministas. Trad.: Denise Bottmann. Porto
Alegre: L&PM, 2012.


Nenhum comentário:
Postar um comentário