segunda-feira, 1 de junho de 2020

DIÁLOGOS ENTRE AFRODIÁSPORA E EDUCAÇÃO: POR UM CURRÍCULO A FAVOR DAS CULTURAS NEGRAS

DIÁLOGOS ENTRE AFRODIÁSPORA E EDUCAÇÃO:

 POR UM CURRÍCULO A FAVOR DAS CULTURAS NEGRAS

Revista Periferia
https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/periferia/article/view/31531

Caroline Delfino dos Santos

Doutoranda e mestre em Humanidades, Culturas e Artes (Unigranrio), especialista em Organização Curricular e Prática Docente na Educação Básica (UERJ), orientadora educacional e professora na rede municipal de Duque de Caxias/RJ.

 



RESUMO

 

A diáspora africana, ou afrodiáspora, foi e segue como resultado de um processo de mercantilização ora no período de colonização, ora na contemporaneidade. Os mais variados deslocamentos e com eles contínuos processos de desterritorialidade implicam um olhar em torno das práticas de aculturamento, silenciamento e apagamento cultural dos povos negros. Assim, o presente artigo justifica-se a partir da constatação da chegada de crianças em situação de deslocamentos às escolas públicas municipais de Duque de Caxias/RJ, concomitante à demanda apresentada pela Lei 10.639/03 que prevê o estudo da História da África e dos Africanos no currículo. O cenário escolar revela-se como um reflexo da sociedade na medida em que tende a projetar nos alunos um determinado padrão estético e comportamental a partir de uma dada cultura: a cultura do masculino, do hétero, do cristão, do branco, do europeu. Embora configure-se como um espaço demograficamente diversificado, quase sempre os valores impostos amparam-se numa perspectiva monocultural. Dessa forma, elenca-se como objetivo chamar a atenção para a necessidade de se pensar o currículo escolar a partir de uma perspectiva a favor da cultura africana com contribuições advindas das trajetórias das crianças em contexto de diáspora. O método empregado apoiou-se nas contribuições da observação participante em razão da interação entre a pesquisadora e os sujeitos envolvidos, utilizando-se ainda de entrevistas com alunos do 5º ano de escolaridade de uma dada escola pública do município de Duque de Caxias/RJ. Os resultados preliminares em torno dos discursos e imagens elaborados pelas crianças apontam para o fato de que estas reproduzem práticas de racismo, não se reconhecendo como crianças negras ou afrodescendentes. Em meio à demanda da construção de um currículo que contemple a história da África, tal como previsto em legislação vigente, aponta-se a presença das crianças africanas no cenário escolar como uma possibilidade disseminação das culturas do continente, suas trajetórias e memórias.

 

Palavra-chave: Afrodiáspora. Currículo. Culturas.

 

 

 

 

 

 

ABSTRACT

 

The african diáspora has been and continues as a result of a process of commodification at the time of colonization, now in the contemporary world. The most varied displacements and with them continuous processes of deterritoriality imply us a look around the practices of acculturation, silencing and cultural erasure of the black people. Thus, the present article is justified by the finding of the arrival of children in situations of displacement to municipal public schools in Duque de Caxias / RJ, concomitant with the demand presented by Law 10.639 / 96, which provides for the study of the History of Africa and Africans in the school curriculum. The school scene proves to be a reflection of society in that it tends to project in students a certain aesthetic and behavioral pattern from a given culture: the culture of the masculine, the straight, the Christian, the white, the European. Although it configures itself as a demographically diverse space, the values ​​imposed are almost always based on a monocultural perspective. Thus, the objective is to draw attention to the need to think the school curriculum from a perspective in favor of African culture with contributions coming from the trajectories of immigrant children. The method employed was based on the contributions of the participant observation due to the interaction between the researcher and the subjects of the research, using interviews with students of the 5th year of schooling of a given public school in the municipality of Duque de Caxias/RJ . Preliminary results around the discourses and images elaborated by the children point to the fact that they reproduce practices of racism, not recognizing themselves as black or Afro-descendant children. Amid the demand for the construction of a curriculum that contemplates the history of Africa, as foreseen in current legislation, it is pointed out the presence of African children in the school scene as a possibility dissemination of the continent's cultures, their trajectories and memories.

 

Keyword: African diaspora. Curriculum. Cultures.

 

 

INTRODUÇÃO

 

Para a construção do presente texto trabalhamos com o conceito de diáspora entendendo que esta trata-se do processo de dispersão de um povo e com ele o apagamento de sua história e culturas. Em nossos estudos, interessa-nos o processo diaspórico o qual foi submetida a população negra advinda do continente africano em contextos contemporâneos. Uma leitura mais global sobre o efeito do capitalismo em solos africanos vem nos permitindo entender as circunstâncias sob as quais africanos de diferentes países migram para outros territórios sendo submetidos a contínuos processos de desenraizamento de suas culturas. Importante ler o migrante como aquele que por vezes passa por reconfigurações identitárias, destituindo-se de muitas das suas marcas, deixando para trás sua origem, histórias, lembranças. A experiência de exílio refere-se a um despir-se contínuo seguido do aculturamento da nova terra em que se encontra.

As reflexões em relação aos processos de transição migratórias, para Hall (2003), relacionam-se a aspectos permeáveis e híbridos. Para o autor, o movimento diaspórico traduz-se como uma reinvenção das experiências culturais, a partir de então considera que as culturas deixam de ser puras e engessadas, estáticas, passando a incorporar elementos da tradição de outras sociedades.

A diáspora africana nos mostra que os deslocamentos via navios negreiros causaram grandes rupturas nas culturas dos povos, contudo até mesmo a dispersão foi capaz de trazer novas configurações identitárias. Se é bem verdade que a diáspora trouxe o apagamento, com ela também surgem movimentos outros de resistência, resiliência. O trabalho de pesquisa sobre afrodiáspora vem nos demandando investigar não apenas sobre a dispersão propriamente dita, mas pensar como as pessoas em contexto de deslocamento passam a ser incluídas ou não em seus locais de chegada, que posições alcançam e como suas culturas passam a ser (in)visibilizadas.

Os atuais contextos de guerra urbana vêm intensificando e reformulando as formas de deslocamentos. Os movimentos de migração posicionam os civis em circunstância de vulnerabilidade provocando a travessia de mares em busca de melhores formas de existência. De acordo com a Agência das Organizações das Nações Unidas para Refugiados (2017) há uma clara distinção entre migrantes e refugiados. Para o órgão, os migrantes referem-se a grupo de pessoas que deslocam-se por razões de cunho econômico, tratando-se, pois, de uma busca por melhores perspectivas. De acordo com a Lei 9474/97, que define mecanismos para a implementação do Estatuto dos Refugiados de 1951, em seu art. 1º refugiado é considerado todo indivíduo que:

I-Devido a fundados temores de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas encontre-se fora de seu país de nacionalidade e não possa ou não queira acolher-se à proteção de tal país;

II-Não tendo nacionalidade e estando fora do país onde antes teve sua residência habitual, não possa ou não queira regressar a ele, em função das circunstâncias descritas no inciso anterior;

III-Devido a grave e generalizada violação de direitos humanos, é obrigado a deixar seu país de nacionalidade para buscar refúgio em outro país. (BRASIL, 1997)

 

O presente artigo opta por tratar dos estudos relacionados aos africanos negros, refugiados ou migrantes, por entender que os deslocamentos não necessariamente se dão por opção. Neste estudo, objetiva-se refletir sobre a possibilidade das crianças africanas matriculadas na rede pública de Duque de Caxias/RJ poderem contribuir, a partir de suas narrativas, com a disseminação da história do seu continente, corroborando para a construção de um currículo de fato diversificado.

O texto estrutura-se a partir da descrição da influência do sistema capitalista sobre populações africanas corroborando, dentre outras problemáticas sociais, na intensificação do processo de diáspora na contemporaneidade. A partir dos referidos deslocamentos, observamos um maior número de crianças africanas negras chegando às escolas municipais da cidade de Duque de Caxias/RJ impulsionando-nos a repensar o currículo praticado no interior dessas unidades.

Concomitante ao presente processo migratório explicitado, observamos que as questões de cunho étnico-raciais estão eclodindo no interior das escolas requerendo um olhar em relação às demandas apresentadas pelos alunos, em especial, as crianças negras. Não por acaso, fazemos menção à importância da implementação da lei 10.639/03 como uma política antirracista no interior das escolas, favorecendo a construção de um currículo que contemple a história da população negra.

A presente composição da cultura negra brasileira é resultado de forte hibridismo entre diferentes culturas. A história da colonização do Brasil marca, sobretudo, a diáspora dos povos africanos e sua escravidão, delineando o papel assumido pela população negra em nossa sociedade. Carregamos hoje ranços de uma sociedade escravocrata que desde sempre posicionou o homem negro em lugar de desprestígio e subalternidade. Somos resultados de um longo processo de diáspora com a apropriação das culturas e ideologias impostas pelo colonizador europeu. No bojo dessa discussão, trazemos uma questão de ordem prática observada no interior de uma dada escola pública apontada por crianças brasileiras negras que se autorretratam como brancas. A análise dos desenhos elaborados pelos alunos revela o desejo pela apropriação de uma identidade que não condiz com a sua.

Concluímos o artigo ressaltando a emergência da (re)configuração curricular a partir de uma perspectiva africana tendo como protagonistas crianças migrantes, visto sua presença em nossas escolas. Assim, buscamos propomos relacionar a chegada desses grupos à demanda curricular presente nas legislações vigentes no que se refere ao ensino da história da África e afins como uma possibilidade de diálogo e imersão em suas culturas.

 

A INFLUÊNCIA DO CAPITAL SOBRE OS PROCESSOS DIASPÓRICOS

 

Importa-nos a forma pela qual o povo africano vinha e vem sendo dispersado mundo a fora. Por meio de suas leituras Castells expõe um panorama econômico para contextualizar o quadro de exploração da África, em especial da África Subsaariana. Em o Fim do Milênio, Castells (2002) busca analisar a crescente relação entre o informacionalismo, a desigualdade e exclusão social presentes na contemporaneidade, dissertando sobre como a humanidade vem sendo afetada pelo processo de reestruturação do capitalismo, mas especificamente as populações do quarto mundo:

O quarto mundo compreende vastas áreas do globo, como, por exemplo, boa parte da África subsaariana e zonas rurais empobrecidas da América Latina e Ásia. Mas também está presente em todas as cidades, nessa nova geografia da exclusão social(...) E é habitado por milhões de pessoas sem casa, presas, prostituídas, criminalizadas, brutalizadas, estigmatizadas, doentes e analfabetas(...). Em toda a parte, o seu número está a aumentar e também a sua visibilidade, à medida que a triagem seletiva do capitalismo informacional e o colapso político do Estado do bem-estar social intensificam o processo de exclusão social. (CASTELLS, 2002, p. 206)

 

Como resultado de um capital informacional, as relações de produção pautam-se sobretudo na individualização do trabalho (mão de obra autônoma ou contratada individualmente no mercado muito desregulamentado), super exploração do trabalhador (desigualdade nas condições de trabalho, na remuneração, do tempo e espaço, ausência de tratamento formal nas relações contratuais, afetando diretamente as minorias sociais) e nas práticas de exclusão social, processo e não condição, que priva alguém do direito ao trabalho no contexto do capitalismo, impedindo sua ascensão, bem como o exercício de sua autonomia no que se refere ao seu auto sustento (CASTELLS, 2002, p. 85) Na lógica do capital, a ausência de trabalho consiste no principal mecanismo de exclusão social, fator capaz de gerar ainda mais misérias.

Os processos desiguais crescem em escala global. A exemplo, a Europa ocidental segue apresentando uns dos mais altos padrões de vida do globo e da história da humanidade. Em contrapartida, o avanço da pobreza e da pobreza extrema vem revelando-se como um fenômeno global, vide o aumento da disparidade no PIB per capita do país mais rico versus país mais pobre identificados no fim do século passado e início deste século. Na década de 1990, 215 milhões de habitantes da África Subsaariana compunha parte do mapa da miséria mundial vivendo com uma média de um dólar ao dia.

Uma leitura mais alinhada aos estudos do campo da geopolítica relaciona o crescimento da pobreza ao uso prioritário de investimentos na reestruturação técnico-econômica ao invés de políticas de bem-estar social. As crises econômicas decorrentes desse projeto e consequente fragilidade dos mercados financeiros justificam a proliferação da pobreza em larga escala global.

Em solos africanos, o capitalismo corrobora para o colapso de suas economias e a resposta segue de maneira devastadora: fome, epidemias, violência, guerras civis, massacres, caos social e político e êxodo. Na contramão da economia global, os países africanos sofrem queda da renda per capita ainda nas décadas de 1980 e 1990. O continente africano aumenta a dívida externa a partir de empréstimos recebidos para ajudar elevar sua economia e sua dependência financeira o leva à subserviência aos países credores e instituições. Paralelo a este cenário, sofre com significativa redução de investimentos estrangeiros e privados ficando à margem da economia global. Investir na África trata-se de um risco: meio institucional pouco fiável, falta de infraestruturas de produção e telecomunicações e capital humano além dos graves problemas de corrupção que comprometem sua vida financeira e do fato das elites se apropriarem da maior parte dos recursos dos seus respectivos países. O poder predatório do estado trata de tais recursos de acordo com a lógica da acumulação pessoal de riqueza, facilitando seu acesso a ela com apoio político.  As redes de clientelismo predominam a favor do Estado e de um restrito e poderoso segmento da sociedade.

Em razão do comando do ex-sargento colonial belga Mobutu, Zaire configura-se como um dos principais exemplos de território devastado pela política predatória. Como resultado de anos de apropriação indevida de bens e recursos pelo então ditador, com apoio dos EUA, Zaire deixa o posto de uma das regiões mais ricas do continente para assumir um cenário de miséria, massacre e epidemias, como o ebola. Em 1997, com a queda de Mobutu, após a revolução, Zaire retomou o nome de República Democrática do Congo.

Outro exemplo refere-se à Nigéria. O petróleo, por representar boa parte da receita do governo, é o responsável pelos conflitos de ordem política, étnica e territorial. Além da devastação da terra, a exploração do petróleo traz consigo os impactos da desigualdade social muito em função das minorias étnicas, que juntas compõem a maioria da população, não usufruírem os recursos advindos do petróleo. Ao contrário, ficam mais pobres. Tal como em outros países da África, apenas uma pequena camada da população detém grande parte das riquezas geradas.

A situação de pobreza extrema agrava os conflitos étnicos, resultando em massacres. Os genocídios vêm configurando-se muito mais como uma questão política do que propriamente cultural. O processo de colonização não se deu de forma consensual quanto a demarcação, ora por limites territoriais, ora pelo critério cultural. Mesmo após a independência a etnia segue sendo como um critério para disponibilização de recursos.

Após a independência, os estados africanos passam décadas sob intervenção estrangeira e assessoria militar, configurando-se como um campo de batalha. A militarização de alguns estados gera gastos com sua defesa, deixando vastos arsenais como heranças nas mãos de civis. Os conflitos étnicos também se intensificam em razão da busca por recursos já escassos diante de uma agricultura em crise.

E é a partir desse contexto que o presente trabalho se insere, entendendo que os deslocamentos não se dão de forma natural, mas desde sempre tratam-se do resultado das intervenções de um mercado. A teoria que prescreve sobre processos de decolonialidade, supera, contudo não subestima, as leituras construídas sobre pensamento colonial. As formas de opressão e subalternização praticadas em decorrência da colonialidade, em especial as que são vinculadas às questões étnico-raciais, geram reações para além do campo das críticas ao racismo. Os movimentos direcionam-se para a mudança da rota, para a leitura a partir de outras perspectivas senão a do colonizador.

Ao analisarmos os presentes deslocamentos dos povos africanos, identificamos o poder do capital sobre a diáspora na contemporaneidade. É sabido que a composição brasileira é originária também de povos que séculos antes fizeram a travessia deixando para trás muitas Áfricas. Contudo, o que há em comum entre ambos os processos diaspóricos é a lógica mercadológica que dilacera os povos fisicamente, ou por meio do apagamento de suas culturas a curto e longo prazo.

Esse estudo busca conciliar a discussão em torno da chegada das crianças africanas em Duque de Caxias às demandas de cunho identitário apontadas pelos alunos negros. Para tal, intentamos nesse primeiro momento mapear as circunstâncias em contexto global que obrigam o deslocamento dessas crianças e suas famílias para outras terras. A seguir teceremos algumas observações em curso sobre a chegada à Duque de Caxias, um espaço periférico marcado por ausências, e as implicações de sua inclusão na rede pública de ensino. Para além da demarcação dos limites específicos da inclusão de estrangeiros, importa-nos vislumbrar as possibilidades presentes no intercâmbio entre diferentes culturas a favor da valorização da história da África e dos negros.

 

AFRODIÁSPORA INFANTIL E O CURRÍCULO ESCOLAR À LUZ DA LEI 10.639/03

 

            Os contínuos deslocamentos de refugiados da África, ora por guerra, ora por perseguição religiosa, ou mesmo a migração em circunstância da miséria aos quais alguns grupos são submetidos, impõe-nos a necessidade de um olhar em relação ao novo quadro que se instaura no cenário educacional brasileiro. A inserção das crianças nas escolas, em especial nas unidades da rede pública de ensino de Duque de Caxias, lócus das nossas observações em curso, impulsiona-nos a pensar possibilidades outras de diálogos entre as culturas africanas e a percepção das crianças brasileiras em relação às culturas da população negra.

A cidade de Duque de Caxias encontra-se localizada aproximadamente a 17 Km da capital do Estado do Rio de Janeiro, uma distância geográfica pequena, se comparada à distância social extrema entre alguns grupos de moradores desses dois municípios. Situada na Baixada Fluminense, destaca-se economicamente dos demais municípios da região em razão das altas arrecadações de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços) do estado do Rio de Janeiro (SIMÕES, 2007, p. 224). Apesar do destaque no setor econômico, Duque de Caxias configura-se como uma cidade onde as desigualdades sociais e espaciais se fazem presentes no cotidiano dos seus moradores, sendo parte destes residentes em favelas às margens de rios, mangues, brejos e Baía de Guanabara. Não por acaso, a cidade é uma das rotas das famílias africanas. O baixo custo das moradias em comunidades locais, somado ao fato de já terem outros conhecidos na área, torna-se uma opção para instalarem-se com suas famílias. A chegada dos africanos à cidade, embora em contextos políticos e econômicos distintos, remete-nos à chegada dos nordestinos. Para ambos os grupos além do baixo custo de vida, a proximidade da cidade do Rio de Janeiro é uma alternativa na busca de empregos.  

Segundo dados apresentados pela Cáritas, entidade que atua com refugiados, só no bairro de Jardim Gramacho (região que abrigava um aterro sanitário) são 60 famílias congolesas fugidas de uma guerra civil que já ultrapassou duas décadas. No bairro Gramacho, há poucos quilômetros do centro da cidade de Duque de Caxias, nas proximidades da estação de trem há grande fluxo de congoleses e angolanos. A matrícula nas escolas públicas nem sempre são efetivadas em razão da dificuldade do acesso à internet, além das especificidades da língua. A ausência de documentos, somado ao receio da ilegalidade no país configuram-se como limitadores para o acesso à escolarização por parte dessas crianças.

            A partir da superação das dificuldades iniciais, com a constatação da chegada das crianças africanas às unidades de ensino surgem importantes questionamentos: Se e como vem sendo construída a inclusão de tais crianças não apenas no que se refere ao aspecto social como também no quesito pedagógico. Quais os entraves ocasionados em razão de idiomas diferentes do português? Para além das dificuldades previstas, interessa-nos pensar a inclusão dos conhecimentos africanos a partir das narrativas dos migrantes.

Em 09 de janeiro de 2003 a Lei nº 10.639 altera a Lei no 9.394/96 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) com vistas à inclusão da obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira no currículo oficial da Rede de Ensino, tal como podemos observar:

 

Art. 1o A Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996, passa a vigorar acrescida dos seguintes artigos. 26-A, 79-A e 79-B:

Art. 26 A. Nos estabelecimentos de ensino fundamental e médio, oficiais e particulares, torna-se obrigatório o ensino sobre História e Cultura Afro-Brasileira.

§ 1o O conteúdo programático a que se refere o caput deste artigo incluirá o estudo da História da África e dos Africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formação da sociedade nacional, resgatando a contribuição do povo negro nas áreas social, econômica e política pertinentes à História do Brasil.

§ 2o Os conteúdos referentes à História e Cultura Afro-Brasileira serão ministrados no âmbito de todo o currículo escolar, em especial nas áreas de Educação Artística e de Literatura e História Brasileiras. (BRASIL, 2003)

A assinatura da lei configura-se como importante conquista para a educação a favor da cultura africana por reconhecer a histórica luta do movimento negro. A lei incentiva as discussões sobre o racismo nas escolas, configurando-se como política a ser disseminada entre as novas gerações. Trata-se ainda de um caminho para o combate ao preconceito racial dentro e fora da escola.

Embora tenhamos superado uma década da deliberação da lei, ainda esbarramos em um contingente de entraves e desafios. Diante de séculos de silenciamento em relação à cultura africana e sua história, os professores se deparam com a ausência de conhecimentos que os capacitem a falar sobre a África para além da ótica apresentada pelo colonizador, uma visão eurocêntrica que subalterniza e desqualifica as experiências desse continente.

Tal como previsto na referida legislação, o estudo da História da África e dos Africanos deve ser ministrado no âmbito de todo currículo escolar. Dada nossas limitações em desenvolver o ensino previsto na lei, somado aos conhecimentos mitificados por alguns livros didáticos, as crianças em contexto de afrodiáspora podem representar uma importante fonte de conhecimentos na (re)configuração do currículo escolar. Embora fossem apresentadas várias problemáticas, todas elas são atravessadas por um mesmo viés, uma questão única a qual pretendemos chamar a atenção: Que diálogos precisam ser construídos nas escolas entre crianças africanas e afro-brasileiras com vistas ao (re)conhecimento de suas histórias, lutas, potência, existências?

Consideramos que a possibilidade de pensar a escola como ponto de (re)encontro entre crianças africanas e crianças afro-brasileiras, tendo como eixo central suas histórias, se articula aos estudos relacionados ao campo da diversidade e as questões de cunho étnico-raciais, em especial dentro de uma perspectiva decolonial. Se por algum tempo nos debruçamos sobre os estudos acerca da colonialidade e deles não podemos abrir mão, observamos a necessidade do enfrentamento dessa realidade que nos impuseram. A esse respeito, nos esclarece Costa e Grosfoguel:

Encena-se, no projeto decolonial, um diálogo entre povos colonizados ou que vivenciam a colonialidade(...). O Brasil, em decorrência dos projetos de ações afirmativas em curso nas universidades públicas do país desde o início desse milênio, depara-se com a possibilidade de incorporar a experiência negra e indígena não apenas na formulação de conhecimento, mas também na busca de soluções para os problemas que enfrentamos. A partir deste locus epistêmico, podemos construir um pensamento decolonial em âmbito nacional, assim como podemos construir um diálogo intercultural com outros sujeitos que vivenciam processos de subordinação no sul global. (COSTA E GROSFOGUEL, 2016, p.15)

 

A proposta em ter como sujeito de enunciação crianças em contexto de deslocamentos em razão de antigos e novos processos de colonialidade implica a construção de novas leitura de mundo. Posicionar essa criança como protagonista na produção de conhecimentos é, não apenas, legitimar culturas historicamente subalternizadas, como também provocar rupturas nas configurações em que se encontra o currículo escolar.

Currículo, desde sempre, é campo de luta e tensão. Historicamente é permeado por disputas de saber e poder e é desse/nesse lugar que precisamos falar. Nesse contexto, práticas de superação aos atuais paradigmas curriculares, estruturados em bases monoculturais, tornam-se importantes questões a serem investigadas.

A experiência do diálogo com crianças negras de bases periféricas, oriundas das classes populares, apontou a emergência de repensarmos o currículo escolar trazendo à tona a temática apresentada pela Lei 10.639/03. Em campo foi observado que as crianças negras não se identificam com sua população, (re)produzindo sua autoimagem a partir de um referencial de homem branco, sinalizando a importância de darmos outra tônica às questões étnico-raciais dentro das escolas. Assim, é preciso pensar a razão pela qual tais crianças não se reconhecem como negras optando por uma autorrepresentação demarcada pela identidade do seu colonizador.

 

A AUTORREPRESENTAÇÃO DA CRIANÇA NEGRA

 

A análise da redação dos Parâmetros Curriculares Nacionais mostrou uma preocupação quanto à oferta de uma educação comprometida com a cidadania. Para tal, elege como um dos princípios a igualdade de direitos:

 

Refere-se à necessidade de garantir a todos a mesma dignidade e possibilidade de exercício de cidadania. Para tanto há que se considerar o princípio da equidade, isto é, que existem diferenças (étnicas, culturais, regionais, de gênero, etárias, religiosas, etc.) e desigualdades (socioeconômicas) que necessitam ser levadas em conta para que a igualdade seja efetivamente alcançada. (BRASIL, 1997, p.20)

 

O texto revela a importância da inclusão das questões sociais no currículo escolar. Apresenta em seu corpo, como um dos temas transversais, a pluralidade cultural, chamando-nos a atenção para a diversidade dos grupos que compõem a cultura brasileira, alertando-nos ainda para a emergência de se investir na superação da discriminação e dar a conhecer a riqueza representada pela diversidade etnocultural que compõe o patrimônio sociocultural brasileiro, valorizando a trajetória particular dos grupos que compõem a sociedade. (BRASIL. 1997. p.20)

A escola, como subproduto do meio tende a projetar nos alunos um modelo eminente de personalidade baseado em valores aceitos socialmente: a cultura do masculino, hétero, cristão, branco. Em nome desse padrão, a história revela múltiplas formas de racismo contra o negro. A linguagem atribuída, as desigualdades salarias, as assimetrias funcionais, anunciam o lugar subalterno que os negros ainda ocupam em nossa sociedade.

Dia a dia projeta-se no negro a imagem do negativo, enquanto ao branco são associados elementos simbólicos considerados como positivos. Embora Fanon tivesse construído uma reflexão em relação à leitura que a Europa desenvolve sobre o negro, como colonizados, reproduzimos as mesmas perspectivas:

Na Europa, o Mal é representado pelo negro. É preciso avançar lentamente, nós o sabemos, mas é difícil. O carrasco é o homem negro, Satã é negro, fala-se de trevas, quando se é sujo, se é negro- tanto faz que isso se refira à sujeira física ou à sujeira moral física ou à sujeira moral. Ficaríamos surpresos se nos déssemos ao trabalho de reunir um grande número de expressões que fazem do negro o pecado. Na Europa, o preto, seja concreta, seja simbolicamente, representa o lado rum da personalidade. Enquanto não compreendermos essa proposição, estaremos condenados a falar em vão do problema negro. O negro, o obscuro, a sombra, as trevas, a noite, os labirintos da terra, as profundezas abissais, enegrecer a reputação de alguém; e do outro lado: o olhar claro da inocência, a pomba branca da paz, a luz feérica, paradisíaca(...) Na Europa, o preto tem uma função: representar os sentimentos inferiores, às más tendências, o lado obscuro da alma. No inconsciente coletivo do homo occidentalis, o preto, ou melhor, a cor negra, simboliza o mal, o pecado, a miséria, a morte, a guerra, a fome. Todas as aves de rapina são negras. Na Martinica, que é um país europeu no seu inconsciente coletivo, quando um preto azul faz uma visita, exclama-se Que maus ventos o trazem? (FANON, 2008, p. 161)

 

Em Pele negra Máscaras brancas, Frantz Fanon cita a seguinte antinomia facilmente observada na sociedade: Uma magnífica criança loura, quanta paz nessa expressão, quanta alegria e, principalmente, quanta esperança! Nada de comparável com uma magnífica criança negra, algo absolutamente insólito (FANON, 2008, p.160). Não é difícil entender o porquê de algumas crianças negras desejarem ser branca se autorrepresentando como tal.

Em análise aos desenhos produzidos por alunos do 5º ano de escolaridade de uma dada escola pública municipal de Duque de Caxias podemos perceber que intentam se autorretratar como crianças de pele clara. Para a presente análise, elegemos dois trabalhos, ambos desenhados por meninas:

 

Figura 1



Aluna A, 11 anos

 

Figura 2



Aluna B, 10 anos

 

A compreensão do comportamento apresentado pelas alunas em se autorretratar como crianças brancas perpassa pela reflexão sobre as formas de discriminação presentes nos livros, na mídia e reproduzidos nas relações cotidianas estabelecidas em diferentes contextos: em casa, na escola, no trabalho, na roda de amigos, no ponto de ônibus ou nas redes sociais já acessadas pelos alunos. Claramente as crianças vão absorvendo o fenótipo socialmente aceito pela sociedade e manifestam o desejo em não serem negras, tal como descrito por Fanon: (...)Começo a sofrer por não ser branco na medida que o homem branco me impõe uma discriminação, faz de mim um colonizado, me extirpa qualquer valor, qualquer originalidade(...). Então, tentarei simplesmente fazer-me branco.  (FANON, 2008, p. 94)

Daí tão importante que a academia e outros espaços tidos como instituídos se debrucem sobre a produção do conhecimento a partir das narrativas dos povos historicamente silenciados. Daí tão importante que as escolas insiram no currículo novas perspectivas de discursos, tendo como lócus de enunciação africanos em contínuo diálogo com afro-brasileiros.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

 

A universalização do ensino, a ampliação do número de matrículas e com ela a inserção cada vez maior das camadas pobres da sociedade na escola nos impulsiona a pensá-la como espaço aglutinador de diferentes culturas. Muito mais que um resultado da soma de identidades diversas, é importante conceber a escola como um território híbrido, cujas culturas e experiências se entrelaçam na construção de um todo. Não nos basta pensar a educação apenas como um direito social a ser oferecido por lei à toda população em idade escolar, mas pensar em como garantir na prática que tal direito se efetive, em que condições, contextos sociais e circunstâncias.

Longe de configurar-se como elemento de neutralidade, o programa curricular é sobretudo, uma escolha não aleatória de conteúdos culturais previamente selecionados. Ele revela quais conhecimentos são validados pela escola, assim como pela sociedade, mostrando com isso seu posicionamento político e seus ideais. O currículo aglutina os conhecimentos que circularão na escola, sendo reconhecidos como legítimos neste espaço.

O estudo questiona aspectos monoculturais da educação que privilegiam especificidades de uma dada cultura em detrimento de outra, vide imagens reproduzidas pelos alunos. A unilateralidade presente no currículo escolar desfavorece as experiências oriundas das crianças negras, pobres, pertencentes a diferentes configurações familiares. Tais marcas identitárias são apenas algumas das experiências não contempladas no currículo escolar, quase sempre ocultadas ou com visibilidade de baixo prestígio social.

Daí tão importante que a escola busque alternativas que favoreçam o diálogo com a cultura africana de maneira a legitimar seus conhecimentos e de seus descendentes. É nesse contexto que propomos o diálogo com os migrantes oriundos da África não apenas como estratégia de trabalho pedagógico, mas como um movimento de inclusão a essas pessoas.

As análises empreendidas dos desenhos evidenciaram que os alunos absorvem padrões estéticos impostos pelo meio para a construção da autoimagem, apesar dos contextos sociais configurarem uma realidade diversificada. Dessa forma, sinalizam para a emergência de pensarmos a valorização de seus povos por meio do currículo escolar, não ignorando a dispersão das culturas africanas, mas se apropriando desse fenômeno social para a possibilidade de encontros outros.

O presente texto se propôs a pensar a educação como um entrecruzamento de culturas e não como uma intensificação do seu apagamento. É nesse contexto que propomos um diálogo possível e necessário entre afrodiáspora e educação, buscando chamar a atenção para a construção de um currículo alinhado às demandas e perspectivas da população negra, considerando sobretudo a presença de africanos em nossas unidades de ensino. 

 

 

REFERÊNCIAS:

 

ACNUR. Disponível em: http://www.acnur.org/portugues/quem-ajudamos/refugiados/ Acesso em 09/set/2017

 

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