segunda-feira, 1 de junho de 2020

Narrativas docentes sobre o processo de inclusão de crianças africanas na Rede Pública de Ensino de Duque de Caxias/RJ

Narrativas docentes sobre o processo de inclusão de crianças africanas na Rede Pública de Ensino de Duque de Caxias/RJ
ANAIS
XIII Encontro Regional Sudeste de História Oral
http://https://www.sudeste2019.historiaoral.org.br/conteudo/view?ID_CONTEUDO=432



Caroline Delfino dos Santos

Doutoranda e mestre em Humanidades, Culturas e Artes (Unigranrio), especialista em Organização Curricular e Prática Docente na Educação Básica (UERJ), orientadora educacional e professora na rede municipal de Duque de Caxias/RJ.





RESUMO

 

Considerando o crescente número de crianças africanas negras em contexto de deslocamento chegando as unidades públicas de ensino no município de Duque de Caxias, Baixada Fluminense, preocupamo-nos não apenas com seu processo de escolarização, no que se refere ao acesso ao currículo mínimo, mas, sobretudo, com a forma pela qual vem sendo construída a socialização e posicionamento dessa criança negra, por vezes refugiada, na sala de aula. Nessa perspectiva, o presente trabalho tem como objetivo investigar se e como as escolas vêm reconfigurando seu currículo em razão do fenômeno migratório com vistas ao reconhecimento e valorização de suas culturas e em que medida sua presença pode corroborar para a construção de práticas descolonizadas. Nesse contexto, a história oral contribui para elucidação das experiências escolares em uma perspectiva inclusiva a favor de tais alunos, suas histórias e culturas. A metodologia empregada favorece a desinvibilização de práticas docente alinhadas à construção de uma pedagogia em prol das diferenças de cunho étnico-racial.

 

Palavras-chave: Currículo; Culturas; Narrativas Docentes;

 

1.        INTRODUÇÃO

 

Os contínuos processos migratórios contemporâneos chamam a atenção da sociedade em esfera global para os problemas decorrentes mundo afora, mais especificamente, nas regiões periféricas, seja por ocasião dos problemas ambientais ou conflitos civis. Ambos decorrentes de um projeto social que estabelece hierarquias entre os povos, corroborando para a sua condição de miserabilidade e acentuando as estatísticas sobre o fenômeno diaspórico.

Esse trabalho justifica-se a partir da crescente chegada de famílias africanas negras à cidade de Duque de Caxias. Os grupos os quais nos reportamos trata-se de pessoas oriundas da República Democrática do Congo e Angola, países afetados respectivamente pelas questões da guerra e seus resquícios.

Considerando todos os dilemas decorrentes desse deslocamento, com ênfase sobre aspectos que se correlacionam a ele: Refúgio, estadia em um país novo e desconhecido, ausência de emprego e renda, elegemos como escopo das nossas discussões a inserção das crianças e jovens africanos nas unidades da rede pública de ensino. O desenvolvimento do estudo norteia-se a partir das seguintes questões: Como tais crianças vêm sendo recebidas nas escolas por seus professores e colegas? Aspectos de cunho discriminatório tais como racismo, xenofobia, machismo, regem as relações estabelecidas entre os alunos? Que estratégias vêm sendo implementadas nesse processo de inclusão?

Assim, o objetivo compreende investigar como as escolas vêm reconfigurando seu currículo em razão da chegada das crianças africanas com vistas ao reconhecimento e valorização de suas culturas e em que medida sua presença pode corroborar para a construção de práticas descolonizadas. A saber, os loci, das investigações referem-se a três unidades de ensino: uma creche com atendimento à educação infantil e duas escolas de ensino fundamental: uma de primeiro segmento e a outra de segundo segmento e EJA-Educação de Jovens e Adultos.

A metodologia empregada corresponde ao uso da história oral com vistas à escuta, análise e valorização das narrativas oriundas dos profissionais da educação, alunos, responsáveis e redes de colaboração aos migrantes: ASPAS-Ação Social Paulo VI e Consulado Geral de Angola, no Rio de Janeiro. Para a implementação do método, recorremos a entrevistas gravadas e transcritas sob a autorização e avaliação dos sujeitos envolvidos[1].

Trata-se de um fragmento da tese de doutorado em processo de desenvolvimento, intitulada como “Limites e possibilidades na escolarização de crianças africanas negras em Duque de Caxias/RJ: um estudo sobre (re)configuração curricular”, vinculada ao Programa de Pós-Graduação Humanidades, Culturas e Artes da Universidade do Grande Rio-UNIGRANRIO.

O trabalho estrutura-se em três seções. Na primeira, abordamos o uso da História Oral no processo de escuta as narrativas docentes e de que forma tal metodologia contribui na elucidação de suas práticas em prol da inclusão dessas crianças e jovens africanos. Nesse ínterim, compreendemos a História Oral como uma significativa alternativa na elucidação de tais trajetórias curriculares. Com vistas a uma compreensão sobre os princípios procedimentais apoiamo-nos nas contribuições literárias de Meihy (2005).

Na segunda seção apresentamos fragmentos dessas narrativas imprimindo uma análise sobre a forma como os alunos chegam as escolas municipais, como são acolhidos/discriminados e de que forma suas culturas são elucidadas como nossa matriz cultural, tal como previsto na Lei 10.693/2003. Trata-se de um documento legislativo que institui a inclusão do estudo da história e culturas da África no currículo oficial.

A seção três apresenta resultados preliminares da pesquisa em voga, com apresentação de dados qualitativos e quantitativos coletados via pesquisa de campo realizada nas unidades de ensino, loci da pesquisa, com recorte temporal de 2018 a 2019.

Enfim, apresentamos algumas considerações empreendidas a partir das entrevistas realizadas e dados coletados até o presente momento. A saber, as narrativas nos revelam que, embora ainda não tenhamos construído uma pedagogia específica para o atendimento dessas crianças em contexto migratório, as professoras do ensino regular vêm instituindo práticas a favor das diferenças de caráter étnico-racial via diálogo cotidiano e projetos pedagógicos mais amplos.

 

2.    HISTÓRIA ORAL: Contribuições metodológicas para o estudo

 

Spivak, importante teórica feminista e intelectual dos estudos pós-coloniais, chama-nos a atenção para a posição do subalterno imposta, sobretudo, por outros tantos acadêmicos que intentam falar por eles. Ainda que os teóricos vislumbrem trazer à tona de forma crítica a condição dos mais vulneráveis socialmente, sua postura reproduz aspectos de subalternidade, uma vez que não possibilita ao próprio sujeito falar de/por si.

Na contramão da denúncia tecida por Spivak (2010), a História Oral alinha-se à possibilidade de que não apenas os subalternos, mas principalmente esses, tenham sua voz entoada através da academia, importante espaço de produção e veiculação de conhecimentos que passam a ter notoriedade e validação. Por subalternos compreendemos grupos de pessoas vulneráveis, tradicionalmente silenciadas e destituídas de benefícios outros em razão da supremacia de grupos sociais aceitos.

Nesse estudo compreendemos as pessoas/povos pertencentes a culturas não brancas/europeias/hétero/cristãs como sendo aquelas cujas identidades estão à margem do que é socialmente esperado e válido. De acordo com Silva, Não é possível estabelecer nenhum critério transcendente pelo qual uma determinada cultura possa ser julgada superior à outra.” (Silva, 2007: 86) Contudo, historicamente a imagem das pessoas negras é vinculada a aspectos de caráter negativo em oposição à representação social construída acerca do homem branco. Os elementos simbólicos que constituem tal afirmação são pontuados por Fanon (2010 [1952]), crítico do campo dos estudos pós-coloniais, que se debruçou a analisar as marcas impressas pelo racismo nas relações instituídas entre negros e brancos. Em suas observações cuida de pontuar de que forma a discriminação racial afeta opressores e oprimidos:

 

Na Europa, o Mal é representado pelo negro. É preciso avançar lentamente, nós o sabemos, mas é difícil. O carrasco é o homem negro, Satã é negro, fala-se de trevas, quando se é sujo, se é negro - tanto faz que isso se refira à sujeira física ou à sujeira moral. Ficaríamos surpresos se nos déssemos ao trabalho de reunir um grande número de expressões que fazem do negro o pecado. Na Europa, o preto, seja concreta, seja simbolicamente, representa o lado ruim da personalidade. Enquanto não compreendermos essa proposição, estaremos condenados a falar em vão do “problema negro”. O negro, o obscuro, a sombra, as trevas, a noite, os labirintos da terra, as profundezas abissais, enegrecer a reputação de alguém; e do outro lado: o olhar claro da inocência, a pomba branca da paz, a luz feérica, paradisíaca (...) Na Europa, o preto tem uma função: representar os sentimentos inferiores, às más tendências, o lado obscuro da alma. No inconsciente coletivo do homo occidentalis, o preto, ou melhor, a cor negra, simboliza o mal, o pecado, a miséria, a morte, a guerra, a fome. Todas as aves de rapina são negras. Na Martinica, que é um país europeu no seu inconsciente coletivo, quando um “preto azul” faz uma visita, exclama-se, “Que maus ventos o trazem?” (FANON, 2008: 160-161)

 

 

            Em “Pele negra Máscaras brancas”, Frantz Fanon cita a seguinte antinomia facilmente observada na sociedade: “Uma magnífica criança loura, quanta paz nessa expressão, quanta alegria e, principalmente, quanta esperança! Nada de comparável com uma magnífica criança negra, algo absolutamente insólito.” (FANON, 2008: 160) Não é difícil entender o porquê das crianças negras desejarem ser brancas. A compreensão desse comportamento perpassa por uma reflexão sobre as formas de discriminação presentes nos livros e na mídia reproduzida nas relações cotidianas estabelecidas nos espaços sociais da casa, da escola, do trabalho, na roda de amigos, no ponto de ônibus, e, mais recentemente, nas redes sociais.

Em nossos estudos vimos elegendo o uso da História Oral por entender que tal metodologia aponta caminhos alternativos à ausência de voz dos sujeitos sociais. Os africanos negros são vistos de forma discriminada, dado olhar eurocêntrico socialmente construído em torno de suas culturas e conhecimentos. Preocupados com sua representatividade, e com o cuidado de não reproduzirmos práticas de silenciamento, buscamos através das narrativas docentes, bem como através de narrativas de alunos e responsáveis africanos, elucidar a forma com a qual os mesmos vêm experenciando a inclusão na sala de aula.

Trazer à tona tais vozes requer um minucioso estudo sobre os procedimentos a respeito da história oral, para tal, fizemos a opção pelas contribuições de Meihy e Ribeiro (2011). Contudo, a escolha pela metodologia implica-nos a necessidade de conhecermos o contexto sobre o qual a ela emerge nos estudos acadêmicos e afins. Cumpre salientar que a História Oral vem sendo adotada em outras instituições não pedagógicas como empresas. Comunidades e grupos familiares.

A Segunda Guerra Mundial (1939-1945) apresenta-se como um marco em relação à criação de importantes aparatos eletrônicos, em especial o gravador, peça chave na materialização do método que surge na década de 1950. A relação se estabelece a partir da necessidade de se instituir instrumento de escuta aos sobreviventes da guerra, produzindo assim fontes orais e consequemente fontes documentais. Salientamos, contudo, que o registro da história oral nos países da América Latina se consolida especificamente a partir de 1980, após a ditadura militar. Objetivava-se, à época, escutar os exilados desse período por meio das entrevistas gravadas.

A história oral, diferente do que se pensa no senso comum, não compreende apenas o uso de entrevistas. O trabalho metodológico pauta-se sobre uma dada sequência de ações previamente planejadas via projetos, com cronograma a ser cumprido- realização das entrevistas autorizadas pelos sujeitos, com posterior execução das etapas de transposição do código oral para o escrito: transcrição, textualização e transcriação.

Em nosso país, o emprego da história oral relaciona-se aos “estudos sobre mestiçagem, presença indígena, a problemática específica da mulher brasileira e, principalmente, o resultado de processos migratórios em nossa cultura (...)” (MEIHY, 2011, S/P) revelando maior aproximação com matrizes latino-americanas, diferenciando-se assim dos modelos externos oriundos da Europa e Estados Unidos.

De acordo com Meihy (2011), um dos pioneiros no uso da história oral no Brasil:

 

A história oral realiza-se num ciclo que parte da existência de um projeto, passa pela definição do grupo a ser entrevistado e depois de efetuada a gravação tem de ser vertida para o código escrito. É fundamental assumir a existência de dois códigos diferentes: a fala e a escrita. Mesmo projetos que se esgotam na recolha de gravações orais para se constituírem em “bancos de histórias” devem ter correspondentes escritos. O trabalho de transcrição leva em conta que entrevista é mais do que diálogo. Todo o gestual, lágrimas e silêncios fazem parte da performance. (MEIHY, 2011, S/P).

 

A história oral, a partir da perspectiva dos estudos construídos por Meihy e Ribeiro (2011), apresenta-se sob quatro gêneros: história oral de vida, história oral testemunhal, história oral temática e tradição oral. A história oral de vida tem como foco as questões biográficas. Tal gênero acompanha cronologicamente as fases da vida. Trata-se de uma narrativa com início, meio e fim. Em relação à história oral testemunhal, a ênfase concentra-se na abordagem de traumas individuais ou coletivos. A história oral temática tem caráter objetivo e por isso mais adotada no meio acadêmico, já a tradição oral consiste na transmissão de mitos e lendas de geração a geração.

A pesquisa em questão envolve a abordagem da história oral temática tendo como principal foco o processo de inclusão de crianças e jovens africanos negros, partindo de narrativas sobre o cenário escolar e todas as questões que atravessam e permeiam as relações cotidianas. Contamos com o registro de um caderno de campo para anotações relacionadas ao agendamento das entrevistas, observações sobre o cenário, roteiro com os estímulos, aspectos do cotidiano que interferiram no momento da entrevista, antes e depois, episódios específicos ocorridos, bem como impressões acerca dos mesmos, contratempos, outros.

Para tal, as entrevistas foram realizadas em caráter semiaberto com o subsídio de estímulos com poucas intervenções. Tais estímulos (perguntas) tinham por objetivo conduzir os colaboradores na abordagem das temáticas interessadas. Cumpre salientar que não cabe ao pesquisador se utilizar das narrativas para verificação dos fatos narrados, uma vez que elementos relacionados à seleção da memória, heroicização do eu, apagamentos e silenciamentos são aspectos facilmente identificados nas falas dos sujeitos.

O termo “colaborador” compreende uma nomenclatura adotada em história oral para referendar os sujeitos da pesquisa. Trata-se, nesse caso dos professores que disponibilizaram suas narrativas, via entrevista oral, com participação ativa. A ausência de uma possível passividade frente ao desenvolvimento do estudo desvincula o sujeito da posição de objeto da pesquisa. De acordo com Meihy e Ribeiro (2011):

As várias ciências sociais estabelecidas nos séculos passados têm se valido do uso de entrevistas aplicando conceitos operacionais que, se vistos à luz das relações social e ético, se mostram pelo menos estranhos, como: informantes, atores sociais, sujeito/objeto de pesquisa. No caso da história oral, por acatar eticamente o interlocutor e colocá-lo como centro gerador de visões, por levar em conta além do seu papel de ‘fornecedor de dados” de “transmissor de informações”, ou “testemunho”, valoriza-se o conceito de colaboração. Reside aí uma das inovações da história oral mais humanizada. Note-se que colaboração não iguala as partes, mas convida a um trabalho participante em que os dois polos- os entrevistados e entrevistadores- são sujeitos ativos, unidos no propósito de produzir um resultado que demanda conivência. Decompondo o termo colaboração, temos três de seus elementos constitutivos e por eles chega-se à sua qualificação ética transformadora dos atos de trocas humanas. (...) Nos trabalhos em história oral, temos: co-labor-ação, como junção de fatores que comungam. Trata-se, pois de pensar processos de trabalho que nascem compartilhados, comprometendo os velhos princípios de alteridade em propostas com entrevistas. (MEIHY e RIBEIRO, 2011: 22-23)

 

Com base no exposto, a História Oral nos possibilita trazer as narrativas dos sujeitos ao cerne das discussões por meio de suas próprias vozes e assim fazer com que exerçam o protagonismo que lhe é devido. O caráter mediador e humano presente na história oral, além da defesa para que a história deixe de ser contada apenas por outrem para ser contada pelo próprio autor da experiência, justifica o seu uso em espaços e estudos que intentem romper com a ausência de autonomia do professor, bem como silenciamento de práticas por vezes não compreendidas pelos mesmos como sendo ações que corroboram para a desconstrução de estigmas de discriminações de caráter étnico-racial. Nesse contexto, a história oral contribui para elucidação das experiências escolares em uma perspectiva inclusiva a favor dos africanos, suas histórias e culturas, com olhar sobre as contribuições advindas de uma pedagogia em prol das diferenças.

 

3.        NARRATIVAS DOCENTES NO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DE UMA PEDAGOGIA A FAVOR DAS DIFERENÇAS: Limites e possibilidades

 

A escuta aos docentes sobre o atendimento das crianças e jovens africanos matriculados nas unidades da educação infantil e ensino fundamental, previa estímulos em torno dos limites encontrados no processo de inclusão. Uma das hipóteses a respeito das dificuldades encontradas pelos profissionais da educação, colaboradores da pesquisa, era de que o idioma se apresentava como um entrave na relação com os africanos, desde alunos a responsável. As falas desconstroem tal hipótese visto que os sujeitos apontam que a diferença na língua não se estabelece como sendo a maior problemática:

 

Inicialmente a gente pensa que o idioma é o grande nó. Depois eu até aprendi uma frase ‘O sorriso não tem nacionalidade’. No meu primeiro contato com o grupo de refugiados lá na igreja, numa roda de conversa, a gente se comunicava mesmo com idiomas diferentes e a conversa teve que parar, porque todos entenderam que não era hora de conversar, porque estava todo mundo com fome. Aí dali partiu a ação para procurar uma cantina, o que tinha para comer, o que tinha na cozinha. Quer dizer, o idioma é um entrave, mas existem outras falas além do idioma: O sorriso, o gesto. (Professora Mariza Reis, 2018)

 

Em consonância à fala supracitada, a Orientadora Pedagógica Viviane Penso traz ao debate o preconceito ao fato de se tratarem de africanos como sendo uma problemática superior à diferença do idioma:

 

A língua, eu não acho que ela seja um problema principal, não. Eu acho que o problema de preconceito é um problema mais sério. Por quê? O fato deles falarem enrolado mostra que eles não são daqui e aí começa aquela coisa do estranhamento dos outros alunos “Por que ele fala assim?” Mesmo às vezes sendo negros como os outros, pobres como os outros, ainda tem o outro problema que é a questão de ser de fora. (...)“Ah! Esse pessoal vem lá de fora querendo o nosso espaço, essa macaca fedorenta!” E aí você vê que assim, visualmente alguém poderia dizer que é a mesma coisa. Só que não é a mesma coisa, porque além de tudo, eles acharam um gancho para ter preconceito com alguém que é igual a ele: pobre, negro. Mas eles ainda acharam “Você é pobre, é negro, mas você ainda é africano. Você nem brasileiro não é!” Então, é um ‘a mais’, é um ‘plus’, não é só uma questão étnico-racial! É uma questão étnico, racial e completamente de preconceito porque eles não são étnico-raciais como a gente. Eles são africanos e por ser a África, porque não iriam fazer isso com um negro europeu. Por ser a África ainda tem esse peso. (Orientadora Pedagógica Viviane Penso, 2019)

 

As falas dirigidas aos africanos, por vezes, oriundas de outras crianças/adolescentes negros revelam um conflito identitário decorrente do fato de alguns alunos não se reconhecerem racialmente. A sociedade tende a projetar nesses alunos um modelo estético amparado em valores historicamente aceitos que não se assemelham ao perfil do negro.

O preconceito proferido por negros aos seus pares revela que a construção da identidade dessas crianças é pautada em uma relação hierárquica entre diferentes povos com supremacia das populações brancas sobre as negras. A discriminação racial supostamente fundamentada em uma doutrina de superioridade com base nas diferenças “é cientificamente falsa, moralmente condenável, socialmente injusta e perigosa(Convenção Internacional sobre Eliminação de todas as formas de Discriminação, 1965). Dito de outra forma, não há justificativa moral e legal para a manutenção e reprodução de práticas discriminatórias em relação as pessoas negras ou qualquer outro grupo étnico-racial. Ao contrário, encontramos um importante referencial legislativo brasileiro que nos traz subsídios para o combate das práticas racistas na sociedade e falam diretamente às escolas e demais instituições de ensino. A compreensão da inserção da educação na eliminação das formas de discriminação parte da necessidade e urgência em pensar a formação de uma sociedade fundamentada nos princípios de igualdade e respeito à diversidade humana.

            Os relatos dos alunos ratificam o preconceito sofrido na escola mesmo sendo eles filhos de africanos. A seguir, a fala de uma criança em relação à amiga após episódio na escola:

 

Ontem (ela) saiu chorando. Eu perguntei “Por que você está chorando?” Ela disse: “Quando a gente chegar em casa eu te explico!”. Aí quando a gente saiu da escola eu perguntei pra ela “O que aconteceu? Me fala!” Ela disse que a colega dela ía bater nela quando saísse da escola, aí depois disse que era mentira e que a colega disse “Você é filha de Angolano!” (Aluno M.)

 

Pensando na necessidade de sanar os problemas de preconceito em relação aos africanos, tal como exposto no relato, e em problemas de ordem geral que se referem a práticas de desrespeito a todos, as escolas vêm investindo em atividades de formação partindo da promoção de informações sobre a origem dos alunos imigrantes/refugiados. Em seu cotidiano os docentes vão criando táticas para a superação do preconceito e abrindo um horizonte de possibilidades para a inclusão dos imigrantes:

 

Pra mim, ter alunos (africanos) não influencia, não dificulta em nada as minhas atividades, porque eu acho que pela minha formação, eu tenho um trabalho de muitos anos com cultura, com literatura. Então, pra mim está somando a tudo aquilo que eu aprendi, a tudo aquilo que eu estudo, e a tudo aquilo que eu acredito. Então quando entra um aluno na minha sala que vem de outro país eu falo “Oba!!! Vamos aprender mais coisas, vamos compartilhar mais conhecimentos, vamos ter o exemplo vivo de situações e de temas que a gente trabalha e eles vão poder trazer experiências, vão poder compartilhar!”... O que eu, logo de cara tento entender é como é a criança, a rotina, como ela se relaciona, o que ela está passando nesses momentos de acolhimento, de integração. Mesmo no segundo e terceiro anos, a gente trabalha mapa, aí sempre que vem alguma oportunidade de trazer o Congo, a Angola, falar da África, a gente sempre busca o mapa. Eles falam “Ah! Esse é o país da C.! Ah! Esse país não é o da D.? Esse não é o lugar que veio o fulano? ”  Então tem essas marcas. E tem os conhecimentos que eles trazem. Tem a questão da cultura deles que é muito forte. E eu tento potencializar o protagonismo desses alunos. (Professora Elizabeth Sampaio)

 

            As práticas pedagógicas já instituídas evidenciam a importância da divulgação e promoção do conhecimento em relações étnico-raciais de forma a ampliar a formação dos alunos com vistas ao reconhecimento das experiências e contribuições dos negros africanos para a história da humanidade. Nesse contexto, a Lei 10.639/2003 se apresenta como um importante marco na construção de uma educação descolonizada, possibilitando, via currículo escolar, o (re)conhecimento da história e culturas da África e africanos.

 

4. Resultados preliminares

 

As regiões metropolitanas dos Estados do Rio de Janeiro e São Paulo, por apresentarem maiores oportunidades de trabalho, não necessariamente emprego, são as áreas mais procuradas pelos imigrantes. Inicialmente eles se instalam no centro do Rio de Janeiro, nas favelas da região. Em seguida dirigem-se para os municípios da Baixada Fluminense em razão do baixo custo de vida, com aluguéis mais acessíveis. Nesse contexto chegam à Duque de Caxias, região periférica do Estado do Rio de Janeiro, por meio de contato de outras pessoas já conhecidas e estabelecidas na região.

Em observação aos grupos de alunos atendidos na rede pública municipal, entre os africanos que vêm migrando para a cidade de Duque de Caxias, a maior parte são oriundos da República Democrática do Congo e, em segundo lugar, de Angola, regiões extremamente impactados com a guerra e seus resquícios.

Em análise aos dados quantitativos, constatamos que o número de alunos congoleses matriculados na rede municipal de ensino é quatro vezes maior que o número de angolanos. Tal dado justifica-se em razão dos conflitos civis vivenciados na região da República Democrática do Congo. Trata-se de pessoas em contexto de refúgio em razão da grave condição de violência e violação de direitos humanos aos quais são/estão submetidos. Tal vulnerabilidade vem impondo a essas pessoas como única possibilidade de sobrevivência o êxodo de sua pátria. (BRASIL, 1997)

Dados coletados em campo revelam que, em parte as mulheres, mães de algumas das crianças vieram na frente por uma questão de sobrevivência, trazendo consigo seus filhos. Contudo, há casos em que homens deixam primeiro seu país de origem e após se estabelecerem aqui, aos poucos vão trazendo os demais familiares. Observamos ainda a chegada de famílias cujo núcleo gira em torno da presença do pai e da mãe, juntos.

Em consulta aos dados presentes no Secretaria Municipal de Educação, no ano de 2015 foram registradas 8 matrículas iniciais, 19 em 2016, 13 em 2017 e em 2018 foram 21 alunos africanos inseridos na rede. A primeira matrícula em uma das unidades pesquisadas é datada de 2013, cuja família dos alunos já não se encontra mais no Brasil, tendo se dirigido à Europa posteriormente. Hoje, essa mesma creche, embora já tenha atendido a crianças africanas recém-chegadas ao país, nesse momento tem em seu corpo discente apenas filhos de imigrantes/refugiados junto as demais crianças brasileiras.

Mais recentemente vimos lidando com a contínua transferência dos alunos para cidades vizinhas da própria Baixada Fluminense (São João de Meriti) ou outros municípios da região metropolitana (Rio de Janeiro: Barros Filho). Contudo, o desejo manifestado pelos próprios africanos é migrar para países da Europa como França e Bélgica, e ainda dentro do próprio continente americano, Estados Unidos.

Entre os idiomas e dialetos falados pelos africanos encontram-se o português lusitano, francês, inglês e lingala. Mesmo as crianças que vieram recentemente da República Democrática do Congo, cujo idioma corrente é o francês, o idioma português já é falado ora por terem aprendido aqui no Brasil através relações cotidianas, ora porque residiam em regiões limítrofes à Angola.

Boa parte dos responsáveis pelos alunos tem ensino médio e alguns, nível superior, contudo os mesmos vêm se deparando com a ausência de empregos formais, sendo submetidos ao exercício de trabalhos não formais que não se correlacionam a sua formação profissional. Dada a crise financeira e política a qual o país vem sendo impactado, os relatos das redes de apoio aos migrantes revelam que não há empregabilidade para os brasileiros, sequer aos imigrantes, em especial sendo eles negros africanos. Tais constatações ratificam toda representação social atribuída ao estrangeiro, como sendo sempre aquele relegado a segundo plano, ainda que tenha cidadania brasileira ou vistos que regularizem sua condição no país de forma permanente.  As mulheres, mães dos alunos, vêm atuando como cabeleireiras em suas residências ou em salões geridos por africanas que migraram a mais tempo e já se encontram estabelecidas financeiramente.

Não temos, nesse momento dados quantitativos sobre o número de africanos em Duque de Caxias, dada sua condição migratória mesmo dentro do próprio estado. Contudo, em análise aos registros da ASPAS-Ação Social Paulo VI e narrativas de membro dessa instituição, atualmente cerca de 50 famílias são mensalmente acompanhadas e beneficiadas por doações.

Pedagogicamente há algumas ações sendo desenvolvidas nas unidades em prol da diversidade na cenário escolar e social. Embora se utilizem da questão racial como ponto nodal para a promoção do debate em torno de valores e respeito as diferenças, as narrativas docentes nos colocam que algumas das ações não são planejadas objetivando especificamente o atendimento dos alunos africanos.

Dentre as ações educacionais promovidas, atividades que versem sobre a África e a condição do aluno africano enquanto refugiado, vêm sendo desenvolvidas com o objetivo de compartilhar informações, acreditando-se que essa configura-se como principal estratégia para o desmonte de atitudes e discursos xenófobos e/ou racistas.

Não há relatos de dificuldades de aprendizagem no que se refere à aquisição de conhecimentos previstos no currículo oficial. Vem sendo pontuado, contudo, uma forma diferenciada de construção de saberes em um dado tempo diferente do já instituído nas/pelas práticas docentes.

O preconceito estabelecido pelos alunos brasileiros se apresenta como um forte limitador nas relações sociais com os africanos. As falas são carregadas de atribuições negativas à cor da pele negra, inclusive tendo alunos negros como difusores de tais agressões. Discriminações em decorrência do lugar de origem também se fazem presentes, trazendo à tona a necessidade da real implementação da Lei 10.639/2003.

 

5. Considerações finais

 

O estudo buscou mapear as trajetórias dos alunos na rede de ensino, partindo desde os fenômenos políticos globais que provocam os movimentos migratórias até sua chegada à cidade de Duque de Caxias, região periférica do Estado do Rio de Janeiro. Nesse processo a pesquisa de campo compreendeu a realização de entrevistas com os docentes, resultando em narrativas sobre a inclusão dos alunos africanos.  

            As escolas que atendem as crianças africanas contabilizam, em média, ser esse o 4º ano desde a sua chegada em maior quantidade, reconhecendo a relação com os Jogos Olímpicos do Rio, embora essa não tenha sido a principal causa. A presença de africanos negros na sala de aula traz à tona problemas inerentes à xenofobia que se mescla ao racismo, revelando ainda questões de alteridade e conflitos identitários, visto que as crianças africanas, ou mesmo as crianças descendentes de africanos nascidas em solo brasileiro, são agredidas verbalmente e fisicamente por outras crianças negras que fazem menção à cor da pele e tipo de cabelo. O preconceito atribuído aos africanos não vem passando despercebido pelos professores que buscam, via projetos pedagógicos, ou via ações cotidianas, intervir com uma pedagogia a favor das diferenças que são manifestadas não apenas pelos imigrantes/refugiados, mas pelos alunos de modo mais amplo.

            Com vistas à superação das práticas de bullying, racismo, xenofobia e outras experiências com viés intolerante, os profissionais da educação vêm encontrando como alternativa o caminho da informação a respeito da origem dos imigrantes/refugiados, suas histórias e culturas africanas de modo a romper com conceitos construídos socialmente em torno do continente africano. As intervenções pedagógicas, ainda que entendidas por alguns profissionais como insuficientes, mostram que as estratégias adotadas vêm caminhando para um processo inclusivo, a favor da diversidade.

            Nesse contexto, a história oral caminha para a desinvibilização de experiências construídas no chão da escola, tecidas por docentes que, frente as múltiplas demandas de trabalho e diversidade de alunos, não negligenciam a função de inserir os africanos na sala de aula. Suas narrativas revelam conduta respeitosa não apenas em relação a sua matriz cultural, que também é a nossa, mas sobretudo solidários as diferenças naturais e àquelas socialmente instituídas. Os docentes se mostram sensíveis as trajetórias de vida desses alunos, seus traumas, perdas, travessias e buscam por meio do diálogo, e também dos laços de afetividade, integrar tais crianças.

 

6. Referenciais

 

A vez da história oral: José Carlos Bom Meihy, pioneiro da técnica, diz que o Brasil desempenha papel de destaque nesta linha de estudos [21 de setembro de 2011]. Carta Capital. Entrevista concedida a Gianni Carta. Disponível em https://www.cartacapital.com.br/educacao/a-vez-da-historia-oral . Acesso em 17/jan/2019

 

BRASIL. Lei 9394/96. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, 1996. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9394.htm Acesso em 01/mai./2019

 

_______. Lei nº 9474. Define mecanismos para a implementação do Estatuto dos Refugiados de 1951, e determina outras providências. Brasília, 1997. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9474.htm  Acesso em 05/jul./2019   

_______. Lei nº 9474. Define mecanismos para a implementação do Estatuto dos Refugiados de 1951, e determina outras providências. Brasília, 1997. Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9474.htm  Acesso em 05/jul./2019   

 

_______. Parâmetros Curriculares Nacionais. Brasília, 1997.

 

_______. Lei nº 10.369/03. Altera a lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional, para incluir no currículo oficial da rede de ensino a obrigatoriedade da temática "história e cultura afro-brasileira" e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/L10.639.htm Acesso em: 10/jun./2019

 

_______. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana (Resolução nº 3. 2004). Disponível em http://portal.mec.gov.br/dmdocuments/cnecp_003.pdf. Acesso em 13/jul./2019.

 

CÉSAIRE, Aimé. Discurso sobre o colonialismo. Blumenau: Letras Contemporâneas, 2010.

 

FANON, Frantz. Pele Negra Máscaras brancas. Salvador: EDUFBA, 2008.

 

_______. Frantz. Os condenados da Terra. Minas Gerais: Editora UFJF, 2010.

 

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 46ª Ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005.

 

________. RIBEIRO, Suzana Salgado. MEIHY. José Carlos Sebe Bom. Guia prático de história oral para empresas, universidades, comunidades, famílias. São Paulo: Contexto, 2011.

 

SERRANO. Carlos; WALDMAN, Maurício. Memória D’África: a temática Africana em sala de aula. 3ª Ed. São Paulo: Cortez, 2010.

 

SILVA, Tomaz Tadeu da (org.). Documentos de Identidade: Uma introdução às teorias do currículo. 2ª ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2007.

 

SPIVAK, Gayatri Chakravorty. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2010.

 



[1] A pesquisa foi submetida ao processo de avaliação do Comitê de Ética em Pesquisa, tendo sido aprovada conforme parecer n° 2.923-350-CAAE: 98606918.7.0000.5283;

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário